Enquanto a Terra gira

As nuvens pinceladas no horizonte pareciam brasas incandescentes, e o sol, um ponto vermelho como sangue. A luz do entardecer acentuava o brilho dos olhos escuros e mansos de Lúcia. Por trás da mansidão do olhar, escondia-se grande inquietude, mas essa face velada era um vislumbre apenas para ela na sua imagem refletida no espelho. Lúcia morava com seu irmão Pedro na casa que fora de sua bisavó, erguida no meio da vastidão do pampa.

Era uma casa de dois andares, com duas torres separadas por uma saleta forrada de prateleiras repletas de livros antigos e raros. O quarto dela ficava na torre norte, o lado iluminado, o dele ficava na torre sul, o lado sombrio. Lúcia quase não saía de casa, e Pedro vivia a vagar pelos campos de revolução, degola e morte.

Lúcia procurava não pensar no perigo dessas andanças. Aprendera que se rebelar contra a hora da morte era tarefa vã. Lera nos livros que as servas do Destino são incansáveis em fiar o fluxo da existência humana, em tecer o ritmo da criatura e marcar a hora da morte. O corte do fio da vida, o momento definitivo de apartar a alma do corpo, é parte do trabalho de uma das servas. Então era melhor nem pensar.

Agora a luminosidade alongava a sombra de tudo sobre terra, e os caules e troncos das árvores mais próximas tinham um tom rosado. A noite logo cairia com um manto negro ao redor. O tempo fluía devagar como uma reza de beatas na saleta, onde Lúcia lia. Os olhos arderam, ela levantou-se e acendeu o lampião, procurando não pensar em Pedro andando sabe-se lá onde, à mercê de maragatos e ximangos.

Pedro e Lúcia eram os últimos que restavam da família. Eram da mesma idade, haviam sido criados juntos e, assim, viviam há mais de um par de décadas. Agora, as volúveis opiniões dos homens não os impressionavam mais. Concordavam que eram as forças impalpáveis do universo que os amedrontavam, moviam-nos como marionetes e se dedicavam a fazer deles os seres que eram.

Foi assim que, no tempo próprio em que cada espécie encontra um par, não encontraram ninguém, a não ser um ao outro. Sabiam também ter direito ao amor, à força universal da atração que justifica a união dos seres, engendrando as linhas de descendência que acabam por ligar a todos: os deuses, os homens e mesmo os deuses e homens. Eles seriam sempre únicos; pois, com os dois, toda a história dos seus encontraria o fim.

Sem pensar em Lúcia, Pedro chegou ao alto do cerro do qual se avistava o horizonte ao longe. Era um cerro de pedra de cume achatado no qual dormitavam lagoas eternas e cristalinas. A chegada foi um instante antes da hora em que o dia se transforma em noite, e todos os seres e as pedras perderam seus contornos próprios. Então, tudo se tornou uno.

Pedro era um duplo: carente e andarilho, herança da mãe; corajoso e esperto caçador, herança do pai. Há anos, desde o começo da revolução, passava os dias e parte da noite campeando, olhando aqui e ali, desconfiando de seus passos, vigiando seus flancos, esperando ser atacado a qualquer momento por homem ou sombra.

Ele desertara, por causa de Lúcia. Mas mesmo sem tomar parte nas batalhas, estava na guerra como todos. A morte rondava a pé e a cavalo pelos pagos. Lembrava a si mesmo disso, como se estivesse se desculpando pelo cheiro de sangue e de morte entranhado nas ventas. Vivia apartado dos homens, não tinha amigos nem inimigos. Não sabia o que procurava, não defendia um ideal, apenas desferia golpes ao acaso, ao léu, ao vento.

A revolução havia passado perto dali, onde ele vivia com Lúcia. Tudo que havia sido destruído seria, novamente, construído. Os bichos e os homens que sobreviveram voltariam a morar na antiga morada. Assim era a guerra, assim seria a paz, enquanto o mal não revivesse. O terror e a discórdia, o amor e a paz se alternavam sempre, às vezes, na mesma geração de homens.

No alto do cerro, Pedro sentia um torpor penetrar por seus poros e paralisar todos os seus músculos e nervos. Não se sentia mais vigiado, todas as preocupações abandonaram seu coração, a mente desanuviara-se, a vida ganhara esplendor. Pedro desejou ter, por um momento, o poder dos homens sábios ou santos para intervir de maneira decisiva nos acontecimentos do mundo. Mudar o seu destino ligado ao de Lúcia desde sempre, mudar a condição imposta para viver essa vida.

O latido de cães, ao longe, resgatou Pedro do torpor e do quase arrependimento. Abriu os olhos para a noite soturna. Toda terra ao redor, até onde seus olhos podiam ver ali do alto, estava tomada pela noite mais escura de sua existência. Somente nas partes baixas que formavam os pequenos vales onde corriam arroios e sangas pairava uma névoa esbranquiçada, cujos fios pareciam querer escapar do topo das árvores.

Pedro retomou seus passos por caminhos de breu. Os cães, que ouvira antes, anunciaram a sua chegada em casa. Ao aproximar-se de Lúcia, um novo estado de espírito se apoderou dele, sentia-se sereno. Sabia que Lúcia estava sentindo exatamente o mesmo.

Sabiam que nenhum dos dois mudaria depois de ter sentido na pele a carícia das mãos do outro. Aqueles seriam eles para o resto da vida. E assim, enquanto a Terra gira, sem se perguntarem se outros antes deles teriam sentido um amor capaz de proporcionar tamanha infelicidade, continuaram vivendo o que lhes cabiam.

Zélia Viana Paim


O Ensaio


          Petrus encostou-se à parede de cristal no centésimo andar do prédio onde estavam instalados os laboratórios e alojamentos destinados aos cientistas da computação holográfica naquela região do país. Olhou ao longe, muito além dos limites murados da cidadela. Os campos em primeiro plano estavam cobertos de miúdas flores amarelas nascidas muito depois da grande seca. Depois dos campos, onde a vista quase não alcançava, nas fazendas comunitárias de criação de búfalos, os campos de pastagem irrigada eram muito verdes.
Ele era um belo homem, tinha cabelos e olhos negros e a pele muito branca. Vestia-se, invariavelmente, de preto, como a maioria dos homens de sua idade. Diferenciava-se deles pelos acessórios: usava uma fina corrente de prata, um fio quase imperceptível, da qual pendia um minúsculo medalhão esculpido caprichosamente com a figura de um dragão. No dedo médio da mão direita usava um anel também de prata com uma pedra de cor azul marinho encravada, cuja laboriosa lapidação oval atraía o olhar apesar de minúscula. As duas jóias eram símbolos da irmandade a qual pertencia.
Ele pensou em Sophia, sua amada. Viveu com ela desde a adolescência até aqueles anos de incoerência e medo nas três últimas décadas. Um tempo que nomearam como ensaio do fim do mundo.
Primeiro veio a “era do transgênico”. Tempos difíceis, durante os quais, sementes transgênicas substituíram as orgânicas por toda a terra cultivável até se tornarem proibidas. Isso só aconteceu porque os mesmos laboratórios que as disseminaram extraíram e salvaguardaram a célula germinal dos alimentos orgânicos cultiváveis. Então, aos poucos, os transgênicos foram sendo consumidos por pragas ecológicas criadas por filiais clandestinas dos mesmos laboratórios. Os órgãos de Estado responsáveis pela transição não divulgaram que a mudança no consumo de alimentos transgênicos para alimentos orgânicos ocasionaria crises de abstinência nos mais jovens.
Sobreveio, então, a “era das nascentes” quando a água passou a ser considerada riqueza. Os aquíferos, reservatórios intocados no subsolo dos continentes, definiram um novo poder mundial. O país atingiu um novo patamar no ranking dos países ricos e pôde mapear seu território em busca de mais água potável. Assim, o governo marcou, cercou e guardou cada vertente ou nascente perene, para que o entorno delas permanecesse intocado em raio de quilômetros considerado seguro, apropriando-se de hectares de terra em benefício do Estado.
A última foi a década do “paraíso induzido”. Uma catástrofe planetária em ondas climáticas vindas do sul: primeiro foram chuvas torrenciais e granizos que inundaram e gelaram a terra; depois, secas intermináveis que desertificaram extensas áreas. Essa catástrofe climática foi desencadeada por uma sociedade internacional de cientistas do tempo que, num delírio de perfeição, tentou induzir um clima perfeito a partir de experiências realizadas em laboratórios sediados no polo sul.
Foi no início dessa última década que uma lenda veio a público na rede mundial de computadores. A existência de uma chave de portal que daria acesso a um novo Éden. Sophia era um dos sujeitos empenhados nessa busca. Ela passou anos tentando decifrar a linguagem que a levaria às figuras, cuja disposição engendraria um signo que servia como chave do portal. Então, desapareceu numa madruga ainda escura e fria.
Petrus afastou-se da parede, estava exausto, os olhos ardiam, as mãos tremiam, era um misto de esperança e desespero. Há três meses, havia encontrado pistas na linguagem que Sophia usava no seu trabalho como designer de interface gráfica. Descobriu a linguagem cifrada, criada a partir da antiga linguagem fonética usada pelos internautas do início do século e figuras de cartas de um game dessa mesma época. Essa era uma linguagem cibernética criada pela irmandade, a qual agora também pertencia. Nessa linguagem segredos eram revelados; preconizavam caminhos incomuns, embora, não afirmassem como já trilhados.
Petrus movimentou-se pela sala, parou no centro abrindo no espaço uma janela holográfica. Com gestos rápidos, nela abriu vários ambientes até chegar ao seu objetivo final. Um espaço dividido para inserir as doze partes do signo que servia de chave. Ao inserir a última, um êxtase tomou conta do seu corpo 
Corpo e mente vaguearam pelo espaço onde nada existia; nem o ardor do sol, nem o desejo dos amantes, apenas uma pálida luz azulada. Uma nostalgia infinda apoderou-se dele ao ver-se só, caminhando numa trilha sem sombras à margem do leito de um rio, onde corria um espesso líquido de brilho prateado. Na superfície lisa, uma ondulação ocasional quebrava languidamente na margem escura com brilhos ocasionais.
O caminho parecia se desfazer numa reta e, um pouco mais adiante, num objeto sólido como um molhe a se projetar sobre o rio. Não havia mais nada visível além do fim do molhe. Mas havia um som lento, suave e regular lá fora, no invisível. Ele sentou-se e esperou. Então, o barco apareceu.
O velho barqueiro aproximou-se do molhe e se comoveu com a esperança nos olhos de Petrus. Não houve necessidade de falar. Estendeu a mão e recebeu, no bojo de seu barco de titânio, o homem em busca da mulher amada. Assim, navegando juntos, o barqueiro de olhos claros e úmidos e o viajante com olhos de esperança chegam à margem visível, às portas de uma cúpula translúcida. Ele despede-se do barqueiro e desce para a praia de areias brancas, sem que o barco balance no espesso líquido.
Antes do barqueiro desaparecer no invisível, a porta abre-se ao toque suave da ponta de seus dedos. Dentro da cúpula, estava amanhecendo. Uma ampla luz doura a planície sem fim que se estende ondulando suavemente. Embora houvesse grandes árvores, a maior parte era coberta por relva baixa numa variedade infinita de tons de verde e matizes dourados. Era primavera e das minúsculas flores emanam delicados perfumes, das grandes árvores que dobram seus galhos ao alcance da mão pendem frutos maduros.
Ele despe-se e caminha sob a cúpula sem olhar para trás. O homem descoberto não sente frio, sede, fome ou cansaço, apenas uma morna embriaguez. Seus passos trilham um caminho sem marcas humanas. Após uma jornada, cuja duração não pensou em determinar, ouve o barulho de um mar batendo nas rochas de um penhasco.
         O homem permanece parado por alguns instantes, cheira o ar, ergue a cabeça com o lábio superior voltado para dentro, e depois, como se cerrasse as narinas, respira fundo pela boca. Ele intercepta o cheiro da mulher amada. Orientando-se pela trilha deixada pelo seu cheiro, encontra-a na margem daquele mar, na união dos dois elementos.
Zélia Viana Paim

No Terraço Circular

Carma vivia há mais de cento e cinquenta anos, não sabia mais ao certo quantos porque já havia perdido a conta de seus dias. Ela esperava ver o final dos tempos; no entanto, secretamente, desejava sobreviver a ele e viver eras sobre eras.
Muitos eram os seus anseios relacionados ao devir, um deles era a de que a sucessão de dias, horas, minutos e segundos que encerram o homem no seu exíguo viver não existisse. Outro, que a inveja associada ao ódio, ao prazer na adversidade do próximo, a aflição em relação à felicidade alheia fosse erradicada. Quase desejava prever um mundo ideal, onde não haveria causa para fome ou pranto.
A face de Carma era cortada por mil rugas finas que lhe estreitavam os olhos claros. No entanto, ainda tinha as mãos e as pernas fortes, e a pele cor de cuia possuía um brilho natural como o das indígenas. Seus dias preferidos eram os dias claros, quando a aurora levantava-se no mar oriental, oferecendo generosamente sua luz ao mundo. Suas roupas eram da cor das pedras, das folhas, dos troncos e dos musgos, mimetizando com o ambiente ao redor.
Ela vivia no alto de uma montanha, numa espécie de terraço circular, de onde avistava todo o horizonte. Era um lugar inacessível por vários motivos, não apenas para aquele que não soubesse andar sobre rochas imensas, saltando sobre os espaços entre uma e outra. Em todos aqueles incontáveis anos, poucos se atreveram a passar além da primeira pedra que fechava o imperceptível caminho que serpentava a montanha.
Ao pé da escada de pedras, o simples curioso sentia sua alma devassada, obrigando-o a recuar em seus passos. Só o crente na existência de seres tão antigos como o princípio dos tempos ultrapassava essa espécie de portal. Esses poucos que chegavam até o topo juraram ter visto um ser fugidio e resplandecente seguir seus passos por todo caminho de pedras.
Lá, longe da morte e da guerra, vivia Carma com o filho Jonas. Ele tinha a face indecifrável, do mesmo modo o número de anos que já tinha vivido. Sua aparência era a de um ser mitológico. Um centauro, no dizer de sua mãe. Se ela não soubesse que era nascido de suas entranhas diria: uma cria de homem e bicho de cascos.
Os cabelos de Jonas eram de um crespo graúdo, o bigode fino contornava os cantos da boca e o cavanhaque terminava em uma fina trança abaixo do queixo. Sua face era quase negra e tinha as mãos e os pés encardidos da terra e do verde das plantas. Seus dias preferidos eram os de chuva, quando, então, andava pela montanha assobiando uma música que só ele ouvia.
Carma ensinou Jonas a não matar ou fazer matar, roubar ou fazer roubar, falsear a medidas das coisas concretas ou abstratas, apartar os pássaros de seus ninhos ou as crias de suas mães. Ensinou-o a ouvir o rumor de armas e a não ultrapassar a linha tênue e de cor igual a nenhuma outra que separava um mundo de outro mundo.
Jonas lembrava Jacinto, o único homem que Carma muito amou. Ele havia morrido em uma das primeiras guerras de todo o seu tempo vivido até então. Sua morte não foi por ter sido soldado ou por tomar parte em algum exército, mas por estar cansado de fugir das forças que queriam a arraia miúda para servir como ponta de lança em batalhas perdidas. Jacinto morreu porque não teve forças para escapar de mãos jovens e trêmulas que seguravam baionetas sedentas de sangue num descampado em uma noite sem lua.
No amanhecer do dia seguinte à morte de Jacinto, Carma preparou-se para abandonar o convívio dos humanos, grávida de poucas semanas. Caminhou por toda a primeira noite e muitas outras mais, querendo chegar ao tempo mais distante. Ela deu-se conta desse singular caminhar quando viu tudo passar por ela, a paz e a guerra e, novamente, a paz e a guerra. Assim foi até o amanhecer de um dia como hoje, uma manhã como esta quando se encontrou ao pé da escada de pedra que dava acesso a esse seu lugar sem tempo.
Em seu agora, via Jonas aproximar-se, balançando a cabeça, lembrando certa vez em que estava com Jacinto. Ele, em sua posição preferida, sentado sobre seus calcanhares, muito sério, macerando na palma de uma das mãos o fumo recém cortado, matutava. Este era um ato muito mais profundo do que o pensar, era como se outro ser, mais sutil, pensasse por Jacinto. Ao cabo de algum tempo, lhe dissera baixinho, como se contasse o último segredo da vida:
- Tenho matutado... Deus está nos joelhos e no alto da cabeça, bem na moleira. Por isso, pra fazer uma prece é preciso ajoelhar na terra e manter a cabeça como um prumo. Decerto, assim, fez Cristo.
Carma pensou em como alguns acontecimentos como este ficaram gravados tão nitidamente na retina. Levantou-se do lugar onde estava sentada, colheu um ramo de funcho que colocou atrás da orelha e uma folha de melissa que colocou entre os dentes, mascando suavemente até sentir a seiva doce na língua. Pensou na mãe, na avó e na mãe desta. Seus homens, também, haviam morrido de morte violenta.
Por muito tempo, não pensara nestes acontecimentos, esquecera que a história de sua gente era a sua história. Lembrava agora o mistério insolúvel envolvendo a morte de seu bisavô; a morte explícita de seu avô degolado em praça pública; a morte de seu pai numa briga de bêbados que não era a dele. Essas eram mortes consideradas pouco dignas naqueles tempos bárbaros. Ao contar a Jonas, ele respondeu:
- Assim é a vida e suas criaturas - sentando sobre seus calcanhares, enrolando entre os dedos a trança que pendia de seu queixo.
Zélia Viana Paim

Poço dos Espíritos

Era uma cidade minúscula à beira de um rio estreito, profundo e ceifador de vidas, tinha poucas ruas, doze na direção norte-sul e vinte e quatro na direção leste-oeste. De qualquer ponto da cidade onde o morador ou visitante se encontrasse poderia avistar os campos ao redor. Era um quase nada de cidade, mas carregava uma sina trágica de mortes e almas penadas.
Os mais velhos diziam que a cidade se formou devagar, ficou muito tempo sem nome. Os moradores das fazendas ao redor, chamavam o lugar de vila, como se, na verdade, não quisessem ninguém ali ou, então, cidade alguma ali enraizasse.
A vila recebeu um nome, Poço dos Espíritos, e começou a tomar pé, com a chegada dos padres jesuítas. Mesmo assim, cresceu a passos lentos e conservadores, dividida em duas: uma, a cidade alta, sede do poder civil e religioso e das residências dos proprietários rurais, que se formou em torno da praça da igreja e do colégio.
Na outra parte, a cidade baixa, onde Cândida morava, se desenvolveram as atividades comerciais e se fixaram as casas dos profissionais que aprenderam seu ofício com os jesuítas: os ferreiros, os marceneiros, os curtidores, os oleiros. A cidade baixa também recebeu aqueles que vieram depois, os turcos das casas de tecidos e miudezas, os caixeiros-viajantes dos armazéns de secos e molhados. Esta parte da cidade se formou em torno de si mesma.
A vila depois da chegada dos jesuítas, antes de se tornar Poço dos Espíritos, teve seus caminhos realinhados. Eles traçaram novas ruas, retas e largas, no seu desejo de ordenar o espaço, na sua preocupação em manter o lugar adaptado à distribuição dos misteres sumamente importantes para o bom andamento da futura cidade.
Embora os jesuítas comandassem, arbitrariamente e com sucesso, o traçado das ruas e depois a ordem na cidade e, até mesmo, a história pôde ser dirigida, ela também aconteceu à revelia da vontade dos jesuítas de ordenar o espaço e as mentes. Foi assim que, na infância de Cândida, a cidade se armou e seus filhos guerrearam por ideais divergentes.
Roubando à lembrança esse tempo vivido, Cândida não sabia precisar quanto tempo demorou desde a notícia da primeira embosca e da última traição até Poço dos Espíritos se tornar o destino final de tanto medo e tanto ódio. Foram dias de luta, entre parentes e vizinhos, que se desenrolaram nos pátios, nos becos, nas ruas, nas praças, nos arredores.
Depois que as balas terminaram, que os braços se cansaram de brandir adagas e cortar gargantas, depois que todos os que estavam fadados a morrer até aquele último dia morreram, as mulheres destrancaram as portas e saíram às ruas, recolheram os corpos e prantearam seus mortos com amargura.
Cândida que tinha ficado fechada no porão junto com suas irmãs teve seus sentidos aguçados para sempre. O motivo talvez tenha sido o silêncio profundo no qual estava imersa, quebrado apenas pelo som dos passos, tiros, arquejos de morte, últimos suspiros e pelos barulhos que só no escuro se propagam.
Desde, então, porém, ela nunca mais pôde ficar numa peça com janelas fechadas. Mesmo se o frio fosse cortante e os passos andassem quebrando a geada pelos caminhos no inverno do tempo, Cândida procurava uma fresta qualquer para que pudesse sentir no rosto um sopro do vento por mínimo que fosse.
Depois das lutas, dos velórios, dos enterros que encheram o cemitério de covas rasas e túmulos complexos, a morte se esqueceu de voltar a Poço dos Espíritos. Dias e noites, meses e meses, anos a fio, durante longo tempo ninguém mais morreu por lá. As sombras não se enriqueciam de novas almas e o cemitério jazia como um canto da cidade sem utilidade nem função.
Em contrapartida, a população triplicou, muitas crianças vieram ao mundo, mulheres que pensavam não serem mais férteis, as casadas de muito, as casadas de pouco e as solteiras pariram, como se todas tivessem que provar da fertilidade de seu ventre ou repovoar a cidade. Cândida, também, casou e teve seus filhos.
Então, quando ninguém esperava mais, houve a primeira morte. Uma mulher jovem de vinte anos apenas, depois de comer talhadas de melancia, caiu ou foi jogada da margem mais alta do rio e morreu afogada num poço, que diziam sem fundo. A cidade custou a crer nessa morte.
Os moradores puseram-se a rondar, dias seguidos, as águas negras do rio, procurando ouvir notícias do paradeiro da mulher no murmúrio das águas, mas elas nada lhes segredaram. Afinal, aquele sempre havia sido um rio traiçoeiro de águas negras e frias, de lamentações e memórias perdidas. Quando, enfim, as águas devolveram o corpo, a barriga da defunta estava dura como pedra e os cabelos penteados em duas tranças perfeitas que mãos humanas não puderam desfazer.
Cândida, não se surpreendeu com o acontecido, pois havia sonhado durante a noite com um caixão negro seguido por um cortejo sem fim que caminhava pelo leito seco do rio em total desalento. Nas margens, os salgueiros debruçavam-se tristemente, como se chorassem a própria solidão à passagem das almas cabisbaixas dos mortos da cidade de Poço dos Espíritos.
Zélia Viana Paim

O Perfume das Magnólias

Cronistas antigos contaram que a cidade chamada Arvoredo desapareceu da face da Terra por obra do desatino completo de seus moradores.
Arvoredo era a última cidade localizada no extremo do país, distante pouco quilômetros da margem que delimitava o continente. A cidade sempre foi pequena, não só pelo espaço físico que abarcava, mas a mentalidade de seus habitantes também era tacanha. Assim os qualificaram os cronistas da época por delicadeza ou bondade.
Nos primórdios da cidade, seus fundadores traçaram ruas retas, que se cortavam em ângulos retos e o desenho das quadras se aproximava do tabuleiro de xadrez. As calçadas foram pontuadas com mudas nativas, e as ruas largas receberam no canteiro central mudas de magnólia branca, orgulho dos cidadãos de Arvoredo.
A cidade cresceu pouco, os pioneiros morreram e as gerações passaram como folha ao vento. Durante muitos anos, nada foi construído ali, nenhuma calçada ou rua, nenhum galpão ou casa, nenhum muro ou cerca, nem mesmo um poço artesiano, que, nos primórdios, também era o orgulho de cada morador.
O governo também não mudava; apenas se alternava entre duas famílias, os Alonso e os Garcia. Nem a razão para esse continuísmo era questionada. Acontecimentos, que não convém trazer à tona, levaram os seus concidadãos a pensar: “nada mais natural, pois eles são os donos de quase toda Arvoredo”.
A maioria dos moradores de Arvoredo tinha um aspecto cansado e triste. A pele enrugada e seca, os cabelos opacos, os olhos baços, os lábios contraídos. Andavam com paços miúdos e rápidos, sem tempo para um dedo de prosa. Pareciam coelhos de estimação de duas Alices, muito atarefados em compromissos urgentíssimos e inadiáveis, ou, simplesmente, assustados.
Fato é que os habitantes se acostumaram com a cidade mal cuidada, como se ela não fosse deles. O mato crescia nas ruas, e o lixo acumulava-se nas sarjetas. Na época das chuvas, os ratos, ratazanas e outros bichos menos nojentos socorriam-se, boiando em cima dos entulhos carregados pela água suja, que rolava pelas ruas e escorria cidade abaixo rumo ao rio assoreado.
Tal cenário contrastava com a casa bem cuidada de alpendre alto, que exibia em sua fachada duas janelas amplas, como grandes olhos voltados para a cidade. A porta avantajada era o orgulho dos proprietários, feita de um único tronco de cedro rosa, entalhada com cachos de uva e hortênsias que rodeavam um brasão com as letras A e G entrelaçadas. Essa era uma casa de comércio, onde os moradores de aspecto cansado e triste trabalhavam. Facas, facões, serras, machados eram os produtos vendidos, aos quais se somava a grande novidade da época, a motosserra.
Desde que o primeiro dos Alonso havia assumido o poder, mal clareava o dia, uma voz anônima suave e envolvente bombardeava os cidadãos com slogans sobre a excelência do seu sistema de governo. Os cidadãos de Arvoredo não se questionavam com desdobramento inexplicável do discurso que se produzia neles, nem sequer se ouviam repetindo as mesmas palavras ditas.
Os cronistas contaram que o desatino começou quando a mesma anônima voz passou a propalar, em decibéis apropriados, do alto-falante instalado em altíssimo poste no centro da praça, as maravilhas proporcionadas pelo uso da motosserra. A voz flutuava por todos os lados, dissolvida no ar que respiravam. Era a verdade de Arvoredo; qualquer sentimento de hostilidade seria inútil, ou mesmo impensado.
Então o discurso e os fatos fundiram-se. Um lote de terra arborizado teve suas árvores cortadas em pequenas toras de metro e meio. Em questão de horas, aquela parte da Terra estava limpa de frondosas espécies, sob o olhar entorpecido dos espectadores. Nenhum deles jamais questionou o poderio desenfreado do homem armado contra a árvore.
Certo dia, a estranha febre, de que falaram os cronistas, alastrou-se. Principiou quando todos os homens adquiriram a própria motosserra, cujo pagamento, dividido em incontáveis vezes, pesava em seus parcos ganhos. Mas o peito de cada um estufava como o de um sapo cururu a um simples olhar para a máquina. Sentiam-se poderosos alçados de simples homens ao status de proprietários da máquina.
Os fins de semana passavam num afã incansável. Principiaram pelo corte das araucárias centenárias, depois pelo corte dos eucaliptos plantados há quinze anos. Cortaram as árvores nativas: os mognos, os angicos, as aroeiras, os ipês e os cedros; a seguir, cortaram as árvores frutíferas: as laranjeiras, os pessegueiros, os limoeiros, as goiabeiras, nem as parreiras escaparam; por último, derrubaram as magnólias. A cada semana a derrubada ia mais longe.
Segundo o que contaram os cronistas, demorou um tempo considerável, mas não restou uma árvore sequer nos pátios, nos terrenos baldios, nas ruas, nas praças, nos campos, nas margens do rio e dos córregos do município inteiro. À medida que as árvores tombavam os animais se afastavam dos homens e do barulho. Os gatos foram os primeiros, seguidos pelos cães, galinhas, vacas de leite e suas crias.
A cidade parecia mais limpa sem árvores. A limpeza era glorificada pela voz anônima e suave. Todos sorriam uns para os outros satisfeitos, passaram a andar com a cabeça erguida, com paços mais lentos, reuniam-se em grupos e conversavam sobre a transformação. O olhar se estendia ao longe sobre a terra nua como uma chaga, alcançando o horizonte e mais além, afirmavam que podiam ver a curvatura da Terra.
Os compradores de madeira chegaram das regiões próximas e distantes, comboios de caminhões saíam da cidade, carregados de troncos. Os habitantes de Arvoredo encheram os bolsos, antes vazios. Tempos depois da venda da madeira, o clima da região alterou entre calores infernais durante o dia e frios glaciais à noite.
Os moradores passaram a andar cada vez mais rapidamente, com a cabeça baixa, quase enterrada no peito. O sol violento e as escassas sombras das casas forçavam aqueles que se arriscavam a sair às ruas a andar de lado rente as paredes e muros. De humano, não se ouvia um balbucio. De bicho, nenhum som sequer, nem de pássaro, nem de sapo, nem de grilo. Um silêncio sepulcral reinava em Arvoredo.
Os habitantes notaram, com estranheza, a falta que sentiam de coisas bizarras como o farfalhar das folhas à passagem de delicada brisa; os galhos batendo nas vidraças, embalados pela chuva; o hábito dos pássaros, ao amanhecer, voarem baixo ao redor das árvores do pernoite; o tremeluzir das gotas de orvalho nas pontas das folhas antes de caírem ao solo; o perfume das araucárias e dos eucaliptos. Entre todas as estranhezas, sentiam mais a falta do perfume das gigantescas flores das magnólias.
Os cronistas contaram que ninguém soube jamais explicar os motivos que levaram aos acontecimentos que se seguiram. Os habitantes começaram a sangrar pelas narinas; primeiro, foram os Alonso; depois, os Garcia, contagiando as pessoas que cuidavam deles. O estranho sangrar se alastrou pelas famílias inteiras de Arvoredo que não puderam fugir. Não houve tratamento que impedisse o sangrar, foi como se o organismo de cada um não pudesse, ou não quisesse mais, conter em si a própria seiva.
Aqueles que se mantiveram em pé por último tiveram que enterrar os mortos em vala comum, não havia madeira nem tempo para esperar mais caixões. Por fim, quando não restava mais morador em Arvoredo, a tarefa de enterrar os corpos insepultos coube aos habitantes da cidade vizinha, não por se importarem com os fatos ocorridos, tampouco por solidariedade humana, mas por não suportarem mais o mau cheiro que tornava o ar ainda mais irrespirável na região.
Os cronistas contaram que, muito tempo depois de tudo ter passado, a montanha de terra que cobria a vala comum esquentou, expelindo um vapor formado pela decomposição dos corpos. O vapor subiu como um fio escuro ligando a Terra ao Céu. Pairou sob a região e aos poucos condensou, formando nuvens espessas e imensas que se derramaram em chuva ácida e contínua por dias. O nada que restava de vida no município de Arvoredo desfez-se enfim. O solo do município apodreceu. Nada mais nasceu naquela parte da Terra onde, outrora, localizava-se a cidade de Arvoredo, contaram os escritos dos antigos cronistas.

Zélia Viana Paim
Imagem Magnólia Grandiflora

Tempo de Contrários

La Gallega, a pequena caravela, singrava o mar profundo há mais de dois meses em direção ao pôr-do-sol na busca de terras novas. Era um barco de casco em “v”, seguro, veloz e de grande mobilidade, característica, juntamente com suas velas, que lhe permitia navegar ventos contrários. O capitão era homem de poucas palavras e produzia, nos companheiros de viagem, sentimentos alternados de admiração e pavor. Era considerado um louco pela tripulação que temia tanto olhar em seus olhos quanto desobedecer a suas ordens.
Os dois jovens, Inês e Miguel, veneravam-no mais que a qualquer outro mortal. O que irmanava os viajantes era àquela altura da viagem estarem todos esgotados; situação agravada pelo racionamento de comida e água.
Inês navegava com o capitão pela primeira vez e àquela manhã, quando acordou, temeu mais uma vez pelas suas vidas.
– Poderosa deusa! Que tempo é este que nunca vi! – Resmungou para si mesma.
O dia amanhecera com uma cor quase impossível de descrever. Nuvens indomáveis corriam de um extremo a outro no céu acima de sua cabeça. O nascente azulado sem um fiapo branco sequer e o poente encoberto de nuvens roxas que se enrolavam uma sobre as outras como se fossem meadas de linha. Aos olhos de Inês, parecia o caos do início ou do fim dos tempos.
– Não desabeis vossa fúria sobre nós. Recuai! Não jogueis sem piedade esse barco no profundo mar. Livrai-nos dos monstros que habitam o insondável abismo! – Pedia a jovem Inês, erguendo as mãos para as nuvens e as baixando para o mar repetidamente numa dança singular.
Inês confiava no capitão, conhecia-o desde menina, do tempo em que sua mãe ainda era viva. Acreditava nele. Admirava-o. Era um homem muito sábio. Sempre foi navegador, conhecedor dos caminhos do mar e das estrelas do céu. Mas agora navegavam um mar desconhecido e as estrelas ainda não tinha função nem nome.
– Os elementos, nestes confins, talvez desconheçam o homem e suas minúsculas naus. Por que fui tirar meus pés da terra firme? Ah! Sábia criatura, para não seres queimada numa fogueira como tua pobre mãe. Lembra-te! Esses ainda são tempos governados pela santa Igreja – respondeu para si mesma, abraçando o corpo estremecido por um calafrio.
A fixação de Inês pelo poente, a paixão pelo desconhecido fora a única coisa que herdara da mãe. Ela fora uma mulher bela e sábia, conhecedora do poder das fases da lua sobre as marés e das estrelas sobre o destino dos humanos. O saber de Inês era outro: o poder oculto das plantas.
Sabia de plantas com folhas e galhos escuros, sem flores, com frutos negros, de forma rara e estranha, com crescimento tão lento quanto a eternidade, que tinham o poder de entorpecer os sentidos. Sabia de plantas que existiam somente perto da água doce, com folhas frias e enormes, cujo leite sem sabor excitava mil vezes o apetite sexual. Sabia o poder de muitas mais. Esse seu saber, como o de sua mãe, também era perigoso aos olhos dos que tinham poder.
Isso tudo pensava Inês, em sua limitada cabine, enquanto macerava folhas secas de mirra com seus dedos delicados de unhas curtas e rosadas em um pote de porcelana. Quando se tornaram pó, arrumou um montículo numa pequena concha de madrepérola e, virando-se para o poente, ateou fogo e invocou quando um fio de fumaça subiu serpenteando em espiral:
– Poderoso e imortal Senhor! Bondosa força do vento Oeste! Socorrei estes míseros mortais que ousaram ter poder para navegar sob as estrelas no desconhecido mar. Conduzi essa nau pelos caminhos do mar ao encontro da terra firme. Deusa poderosa! Agradeço a vós, sapientíssima e amorosa, pelas palavras que saíram da minha boca.
Alheio a reza e ao ritual de Inês, Miguel, o cristão novo, amigo e ajudante do capitão, também estava incomodado com a cor do céu naquela manhã.
– Eu acredito no capitão, ele é o mais sábio dos homens. É um homem poderoso. Os caminhos do mar desconhecido se abrem generosamente para ele. Logo, ele é capaz de navegar o mar sem fim. Tenho fé! Nosso Senhor, Deus-Todo-Poderoso! Ele chegará aonde deseja ir; – afirmava para si mesmo, completando – embora, o tempo não esteja do seu lado.
As palavras escapavam de sua boca como se fosse uma prece. Miguel era alto, com a pele clara, os cabelos e os olhos negros. Sob o lábio leporino quase imperceptível, usava um bigode. Vivia para perscrutar o horizonte infinito durante o dia, e as estrelas durante a noite. Era minucioso nos seus cálculos e de total confiança do capitão.
– Meu Deus! Pelos meus cálculos, já navegamos toda a água estimada pelos estudiosos, já ultrapassamos inúmeras vezes a linha do horizonte. E até agora nada, nenhum sinal de terra. Meus olhos cansados avistam caudas de dragão seguindo a nau. Poderiam avistar, ao menos, uma ave qualquer no céu. Essas sim seriam um bom presságio, mas nada, nada, a não ser o desconhecido insondável, a sombra dos mitos e este tempo que não é nosso. Tempo de outros tempos, outras eras, outros mundos – falava gesticulando em volta da mesa com mapas abertos sobre ela e, sobre os mapas, bússolas, astrolábios e quadrantes.
Desde menino, Miguel acompanhava o capitão em suas viagens, navegara com ele pelos mares quentes da África e pelos mares gelados do Norte. A sua educação na arte da navegação fora destinada ao capitão pelo próprio pai. Ele era um mercantilista judeu que acumulara grande fortuna, em pouco tempo, graças a seus empreendimentos na navegação. O pai de Miguel pretendia fazer dele capitão de sua própria nau e, talvez, de sua própria frota. Miguel considerava o pai um homem de visão aguçada para a época.
– Meu Deus, Pai Todo Poderoso, Senhor do Universo, céus e terras estão sob vosso domínio, ajudai-nos, tende piedade de nós – pedia enquanto escrevia em seu diário:
"Estamos a sessenta o oito dias no mar. A última vez que vimos terra foram as ilhas onde abastecemos de frutas, água e caça há quarenta e oito dias. Depois não encontramos mais terra. Enfrentamos todo tipo de tempo nesses meses de viagem: tempestade, bonança, calmaria, mas nunca um tempo assim. O céu está em revolta e as nuvens estão bem próximas, creio que, em breve, desabarão sobre nós. O mar está calmo e liso como um rio. Isso não o impedirá de nos esmagar como seres ínfimos que somos à mercê de seus humores. O capitão não dá mostras de preocupação, mandou baixar as velas, deixando somente a da popa e deu ordens para contemporizar e esperar a tempestade."
Miguel fechou o diário e saiu ao encontro de Inês, alcançando-a no instante em que soprava cinzas para o vento. Na proa, os dois jovens miraram o poente esperando algum sinal. À frente deles, as nuvens eram como um paredão roxo quase negro. Então, suas narinas dilataram, e ambos sentiram uma leve mudança no cheiro salgado de mar. O vento mudara trazendo um perfume dulcíssimo, tão agradável que deu aos dois um prazer imenso em senti-lo.
– Estarei tendo novas alucinações? – Perguntou-se Miguel, mal mexendo os lábios, tentando menosprezar a secreta alegria que tantas vezes antes provara ao sentir o cheiro de terra a léguas de distância.
Um troar de trovões anunciou a chuva que desabou copiosa sobre o mar, os pingos eram grossos, pesados e quentes. Miguel e Inês voltaram aos seus lugares. O mar liso encrespou levantando vagas imensas que batiam no lenho com estrondo de mil tambores. A tripulação lutou para proteger o barco e a vela da reviravolta inesperada do vento. Choveu durante horas ininterruptas. Parou no fim da tarde, quando o sol ainda estava a um palmo do horizonte. Um bando de aves brancas, nunca vistas, retornando para terra, veio dar à nau. Era o segundo sinal de terra, em quarenta e oito dias, navegando sempre em direção ao poente. Na proa, Inês e Miguel sorriram igualmente agradecidos e crédulos.

Zélia Viana Paim

Uma História Surreal

Estes fatos que passo a contar aconteceram antes que a região fosse invadida por uma fauna humana constituída de esotéricos e cientistas. Foi no tempo em que a impiedosa seca assolou a região; as manhãs e as noites eram frias, e um vento morno que principiava ao meio dia, enrolava as folhas das árvores, fazendo com que caíssem ainda verdes e forrassem o solo, deixando que os galhos nus, como dedos sem carne, apontassem para todos os lados.

– O vento da miséria! – reconheciam todos.

Éramos todos conhecedores dos caprichos do tempo, morávamos no corredor da seca, ao sul do continente. Estávamos acostumados com a seca nos longos meses de estio; entretanto, uma seca inclemente igual aquela nunca tínhamos visto, nem mesmo os cidadãos centenários. O sol parecia jamais repousar no firmamento hostil e crestava as peles banhadas de suor. O trabalho arrastava-se pela região em morna lentidão.

Todos sofriam com fortes dores de cabeça e de garganta por causa do sol que não dava tréguas. Os açudes da região e, até mesmo, as lagoas, que sempre havia resistido à estiagem, secaram pela primeira vez. No grande rio exaurido, não restava um filete de água no leito rachado.

Então, nesse clima de secura extrema, nossa pequena cidade tornou-se palco de fatos estranhos. Dizem que tudo começou inclusive a seca extrema, com a construção da estrada. Quando as máquinas principiaram a rasgar os campos precipitaram-se acontecimentos estranhos desencadeando na população um misto de assombro, curiosidade e redobrada fé.

O novo traçado da estrada que ligava as duas únicas cidades da região exigira a detonação de cerros, o corte de árvores e a drenagem de banhados e sangas. O traçado da estrada velha contornava esses obstáculos; embora, não passasse de um caminho aberto por animais de carga.

Os moradores diziam que o traçado novo deveria estar há anos no papel, porque, nos mapas rodoviários da região, a estrada constava como sendo asfaltada. Fato que causava transtorno em viajantes desavisados. Durante anos, os moradores ouviram dizer que as verbas se sucediam para a construção, mas desapareciam nos labirintos da burocracia.

O certo foi que, numa fatídica manhã, um cerro foi explodido, justamente aquele da gruta da santinha. Era uma gruta antiga tanto quanto a santinha, de cujo nome ninguém lembrava mais. Os moradores mais velhos e crédulos visitavam-na regularmente, acendendo velas fazendo pedidos e em agradecimento às mesmas graças recebidas. Ao ser mandada pelos ares, com o cerro de pedras no qual fora caprichosamente assentada, há tantos séculos que ninguém sabia ao certo, a gruta da santinha caiu no solo intacta sem uma rachadura e com as velas ainda acesas.

Então, as peregrinações começaram; primeiro, à noite, depois, durante o dia. As pessoas comuns, por curiosidade; os antigos devotos, por pura fé e os novos, por crença recente. Os peregrinos acenderam velas aos pés da Santinha, ao redor da gruta, pelos caminhos percorridos até ela. A luminosidade era tamanha que podia ser avistada da cidade, do campo, dos lugares longínquos, do espaço pelos satélites e destes pelo mundo.

– Os acontecimentos são estranhos, mas talvez possam ser detidos pela mão do homem – decretou um dos mais novos vereadores da cidade.

Os caminhos foram patrulhados por voluntários, e os peregrinos, constrangidos tanto pelos moradores como pelas forças da ordem local, menos Valentina, a beata.

– Ninguém pode conter os desígnios do céu! Olhem os sinais! Olhem para o céu! Vejam como as estrelas estão brilhantes! Vejam com seus próprios olhos, os alinhamentos dos planetas! – gritava Valentina, a beata que viera com a primeira leva de peregrinos. Gritava para um público cada vez maior de lentos e sedentos fiéis.

Os últimos acontecimentos estranhos se deram no mesmo dia em que esotéricos e cientistas invadiram a cidade.

O dia nasceu com uma nuvem formada por bandos de urubus pairando sobre a cidade, como se fosse um redemoinho negro. Homens armados com armas de fogo dos mais diversos calibres atiraram contra o olho do redemoinho. As inúteis saraivadas de balas, no entanto, não fizeram mossa no impenetrável. Sem sucesso, apelaram para flechas incendiárias, causando pequenos incêndios, por causa das folhas secas.

Neste mesmo dia de ações inúteis, Venerável Fortuna, o vereador mais antigo e respeitado, reeleito por décadas seguidas, fez mais um discurso inflamado contra todos. Antes de finalizar sua fala, um ataque de tosse acometeu o velho vereador que cuspiu folhas verdes e pétalas amarelas.

Aos olhos de todos os incrédulos presentes, adversários e companheiros de tribuna, foi transmutando aos poucos no que parecia ser um pé de fedegoso. Ao cabo e fim do processo exclamou o agrônomo Juarez

– Agora sim, ele é um pé de fedegoso em flor! – Para o microfone que uma mão anônima lhe estendia disse enfático: – Senna macranthera é o nome científico da espécie na qual o nome vereador transmutou-se.

Os galhos da árvore recém-formada do homem subiram para os céus, alcançando o bando de aves negras. Ao toque dos galhos mais altos, o impenetrável redemoinho desfez-se numa intensa luz violeta, cegando os presentes. Quando puderam abrir os olhos novamente, libélulas azuis voavam pelas flores amarelas da árvore, e gatos, às dezenas, pelo chão, rondavam as libélulas.

Só Valentina, a beata, sorria.

– Bem-feito! Eu avisei! – falou, abrindo a sombrinha estampada com flores amarelas no momento em que as primeiras libélulas começaram a cair.

Milhares de libélulas ao tocarem o solo, momentaneamente tornavam-se velas acesas para em seguida desaparecerem, para congraçamento dos homens e desapontamento dos gatos. Isso foi tudo que aconteceu num só dia antes que copiosa chuva caísse e cada um retorna-se para casa.

Zélia Viana Paim

A boca do vento

Bina acordou cedo, ela pretendia pegar o ônibus às cinco e meia. Tomou um café forte sem açúcar em pé mesmo ao lado da pia da cozinha e saiu para o ar seco e frio do sábado. Bateu a porta sem querer, não pretendia acordar ninguém, principalmente, o pai. O vento começou quando seus pés calçados com botas gastas tocaram a terra.

Setembrina era o seu nome, por obra da parteira que a ajudou a nascer no dia em que começou a ventania, e o lixo espacial caiu espalhando-se pela região há dezesseis anos. A mãe de Bina havia parido tantos filhos que nem tinha mais gosto para escolher um nome pra filha.

– Setembrina é um bom nome – disse a parteira e emendou – no fim, ela vai acabar sendo Bina mesmo, que é muito mais bonito, mas não é nome de gente deste mundo.

Bina riu dessa lembrança contada e quase perdida, prendeu o cabelo com um elástico, colocou os óculos de soldador de lentes enegrecidas e subiu a rua, maldizendo a poeira que levantava com a ventania. A cidade ainda dormia àquela hora com as janelas, portas e portões fechados. Ela caminhava pelo meio da rua porque naquela parte da cidade os calçamentos tinham virado areia e restos de pedras arredondadas.

Ela procurava não pensar na noite passada na casa do pai. Os olhos ardiam, estava cansada, dormiu tarde, muito depois que o pai parou de andar pela noite adentro. Havia noites em que ele parecia estar em outro mundo. Esta noite havia sido uma delas.

Assim que a noite caiu, armado com um revólver sem balas, espiava para fora por traz das cortinas das janelas e pelas frestas das portas, mirando um bandoleiro invisível que rondava a casa para roubar e matar.

Era um mundo assobrado, como se ele pudesse ver seus grandes medos em seu encalço naquelas noites tenebrosas. Bina pensava que o mundo dela também era feito de fatos incomuns. Para ela, o medo não era nada comparado à maldição.

– Dizer o que da maldição? - perguntou e continuou: - Pessoas dizem que a maldição pode ser transformada em dom.

Bina achava que não.

– Maldição não é uma coisa a ser enfrentada, somente se aceita viver assim como um ser amaldiçoado.

Falou para o vento:

– Ou uma cidade amaldiçoada, como essa.

As cidades da região foram as que primeiro sofreram com o vento e a seca que assombrou a região por anos, os campos foram secando, e então a maioria das cidades não sobreviveu.

Bina desconhecia a cidade próspera de antes. Para ela, sempre foi assim: ruas sem pavimentação ou calçamento, paredes descascadas de sua tinta original, enormes pedaços de metal retorcido do lixo espacial e campos quase desérticos ao redor.

Bina cortou caminho pelas ruas vazias, desviando do lixo reluzente até a estação rodoviária, que estava quase vazia quando chegou. Era um prédio antigo, padronizado, com letreiros desbotados e paredes descascadas.

A um canto, à esquerda, uma mulher sentada no chão e rodeada de cestos de plástico trançado com desenhos coloridos, de tamanhos e formatos variados, parecia estar acordando no momento em que olhou para Bina.

No canto oposto, sentada em um banco de cimento, uma mulher jovem acendeu um cigarro no outro. Olhou para Bina e tragou com prazer suicida, soltando uma baforada farta e branca que se desfez ao vento.

Bina sentou-se em outro banco igual, a uma distância considerável da mulher e de suas baforadas. Um silêncio profundo tomou conta do lugar, quebrado por latidos distantes e choro de criança faminta ali por perto.

Algum tempo depois, chegaram três soldados que caminhavam se empurrando, rindo e falando alto ao ponto de se engasgarem e cuspirem para o chão ao mesmo tempo. Quando deram com os olhos em Bina, se calaram, sem antes falarem mal do tenente e chamarem o sargento de florzinha.

Enfim, as portas da rodoviária se abriram e todos se dirigiram aos guichês onde duas mulheres vendiam as passagens. Uma das mulheres, com o controle remoto, mudava os canais da televisão estatal na parede em frente sem olhar.

Enquanto o ônibus azul e verde da empresa Nova Fronteira estacionava, chegou mais um passageiro, um senhor tão velho que parecia feito só dos sulcos de suas próprias rugas.

Com as passagens compradas, rumaram para seus lugares no ônibus, em um ritmo solene, como se fosse uma dança com os mesmos gestos longamente ensaiados.

Quando o ônibus partiu, a mulher dos cestos ficou olhando desolada, como se lhe roubassem velhos amigos, conhecidos de longa data, outras eras, outros mundos, convidados de uma festa imaginária.

No ônibus, todos os passageiros, menos Bina e a jovem fumante, empenharam-se em uma conversa séria, apropriada para aquela hora da manhã.

Bina recostou-se melhor na poltrona gasta e dormiu embalada pelas vozes cada vez mais distantes.

Sonhou.

Estava em um castelo erguido no meio de um campo de ninguém. As janelas batiam, as portas rangiam sopradas por um vento escaldante. Uma poeira fina e vermelha entrava pelas portas e janelas abertas.

Os raios de luz na poeira eram como grandes pernas de um inseto gigante feito de minúsculos pontos flutuantes. No centro dessa sala vermelha, ela dançava uma dança solitária, acompanhando num rodopiar febril e descompassado a música nos seus ouvidos.

Acordou suada e sorrindo.

O ônibus sacolejando chegou ao seu destino: a rodoviária de Rincão dos Butiás. Era um prédio igual a outra cidade qualquer. O que a fazia singular era um pedaço enorme de lixo espacial brilhante encravado na calçada, como uma seta que a prefeitura não conseguiu arrancar, apesar das infindáveis e fracas tentativas nestes dezesseis anos.

No ônibus, os passageiros ainda conversavam.

– Chegamos! – disse o senhor feito de rugas.

– Cidadezinha velha, ruim de trabalho e, ainda por cima, com esse vento que levanta sem aviso, seu João – respondeu um dos passageiros.

Bina sentou-se melhor, jogou para trás os cabelos de hidra, esperou que os passageiros descessem e resmungou para si mesma:

– Só o que me falta é morrer neste fim de mundo, nesta cidadezinha, nesta boca escancarada que sopra o vento no mundo sem parar.

Calou-se, pensando e resmungou de novo:

– A primeira coisa que vou fazer é ir ao cemitério. Todos os meus mortos estão lá. Elas em maior número que eles. E se for esse meu destino, nascer e morrer aqui? Inferno! Isso sim seria pior que a maldição.

Uma mulher jovem e forte com um filho dormindo nos braços caminhava no corredor do ônibus. A cabeça loira estava recostada no ombro da mulher e da boca aberta escorria uma baba cristalina.

– Será que começaram a engarrafar baba de criança pra vender? – se perguntou Bina.

A mulher olhou para Bina curiosa. Mas ela estava acostumada a falar sozinha, olhares tristes, curiosos ou enviesados eram o que menos lhe importava na vida.

– E se este ônibus me levasse mesmo para uma Nova Fronteira, um lugar em que o todo poderoso criador tivesse tocado com o dedo e dito quando nasci: – Encontra-o, criatura! - murmurou para quem quisesse ouvir, mas ninguém olhou para ela.

Bina deu de ombros, arrumou a longa cabeleira prendendo-a novamente com o elástico, passou a mão pela roupa amarrotada, tateou a chave no bolso do jeans e as poucas moedas que restavam. Saiu do ônibus, tentando adivinhar o que restaria ainda de seu destino ingrato de nascer com o vento.

Bina tocou a terra vermelha com a ponta das botas gastas, o vento recomeçou. Um vento inplacável que arrancava as folhas das árvores e as varria para além dos muros, das casas, dos túmulos, dos templos, da cidade, daquela região, transformando as ruas em areia e em restos de pedras arredondadas.


Conto de Fadas

Era uma vez uma mulher que deu à luz uma linda menina. Já no quarto, ao recebê-la nos braços, chorou sem conseguir conter-se. As roupas dela e da menina ficaram ensopadas, como também a fronha, os lençóis e as toalhas. As enfermeiras esgotaram seus cuidados inúteis. Chamaram a médica que havia feito o parto. A médica atestou que a razão do choro não era tristeza. Era amor. 
A mulher sentia-se um ser imperfeito. Questionava-se. Como pudera receber tão divina graça? Como mostrar à menina a civilização tal como era? Como, aos olhos da menina, o mundo seria justo e bom? Como faria para a menina ver um mundo diferente do mundo que a civilização inventara? Depois de parar de chorar e de muito pensar, decidiu. Ensinaria à menina tudo que de mais importante havia aprendido. A existência de outra natureza. Não palpável, não apreensível, nem densa. Foi assim que a menina, desde os primeiros dias de vida, ouvia a mãe contar histórias de outros mundos: 

A rainha estremeceu e ficou verde de ciúmes. E daí, cada vez que via Branca de Neve seu coração tinha verdadeiros sobressaltos de raiva. Sua inveja e seus ciúmes desenvolviam-se qual erva daninha, não lhe dando mais sossego, nem de dia, nem de noite. Enfim, já não podendo mais, mandou chamar um caçador e disse-lhe:
 – Leva essa menina para a floresta, não quero mais tornar a vê-la; leva-a como puderes para a floresta, onde tens de matá-la; traze-me, porém, o coração e o fígado como prova de sua morte.
O caçador obedeceu. Levou a menina para a floresta, sob pretexto de lhe mostrar os veados e corças que lá havia. Mas, quando desembainhou o facão para enterrá-lo no coraçãozinho puro e inocente, ela desatou a chorar, implorando.
– Ah, querido caçador, deixe-me viver! Prometo ficar na floresta e nunca mais voltar ao castelo; assim, quem te mandou matar-me, nunca saberá que me poupaste a vida.
Era tão linda e meiga que o caçador, que não era homem mau, apiedou-se dela e disse:
– Pois bem, fica na floresta, mas livra-te de sair dela, porque a morte seria certa. E, em seu íntimo, ia pensando: “Nada arrisco, pois os animais ferozes vão devorá-la em breve e a vontade da rainha será satisfeita, sem que eu seja obrigado a suportar o peso de um feio crime”.
Justamente nesse momento passou correndo um veadinho; o caçador matou-o, tirou-lhe o coração e o fígado e levou-os à rainha como se fossem da Branca de Neve. O cozinheiro foi incumbido de prepará-los e cozinhá-los; e, no seu rancor feroz, a rainha comeu-os com alegria, certa de estar comendo o que pertencera a Branca de Neve.

E a menina sonhava com outro mundo, onde meninas, como a Branca de Neve, estariam a salvo de rainhas más. E sonhava.

Fim

Fragmento de texto extraído de Contos e Lendas dos Irmãos Grimm. Trad. Íside Bonini. Ilustrações de Ramirez. São Paulo: Editora Edigraf, vol. 1, s.d.