A passeata, a lista e o graveto seco
Flor de Defunto
As Pétalas Rosa Antigo
Enquanto a Terra gira
As
nuvens pinceladas no horizonte pareciam brasas incandescentes, e o sol, um
ponto vermelho como sangue. A luz do entardecer acentuava o brilho dos olhos
escuros e mansos de Lúcia. Por trás da mansidão do olhar, escondia-se grande
inquietude, mas essa face velada era um vislumbre apenas para ela na sua imagem
refletida no espelho. Lúcia morava com seu irmão Pedro na casa que fora de sua
bisavó, erguida no meio da vastidão do pampa.
Era
uma casa de dois andares, com duas torres separadas por uma saleta forrada de
prateleiras repletas de livros antigos e raros. O quarto dela ficava na torre
norte, o lado iluminado, o dele ficava na torre sul, o lado sombrio. Lúcia
quase não saía de casa, e Pedro vivia a vagar pelos campos de revolução, degola
e morte.
Lúcia
procurava não pensar no perigo dessas andanças. Aprendera que se rebelar contra
a hora da morte era tarefa vã. Lera nos livros que as servas do Destino são
incansáveis em fiar o fluxo da existência humana, em tecer o ritmo da criatura
e marcar a hora da morte. O corte do fio da vida, o momento definitivo de
apartar a alma do corpo, é parte do trabalho de uma das servas. Então era
melhor nem pensar.
Agora
a luminosidade alongava a sombra de tudo sobre terra, e os caules e troncos das
árvores mais próximas tinham um tom rosado. A noite logo cairia com um manto
negro ao redor. O tempo fluía devagar como uma reza de beatas na saleta, onde
Lúcia lia. Os olhos arderam, ela levantou-se e acendeu o lampião, procurando
não pensar em Pedro andando sabe-se lá onde, à mercê de maragatos e ximangos.
Pedro
e Lúcia eram os últimos que restavam da família. Eram da mesma idade, haviam
sido criados juntos e, assim, viviam há mais de um par de décadas. Agora, as
volúveis opiniões dos homens não os impressionavam mais. Concordavam que eram
as forças impalpáveis do universo que os amedrontavam, moviam-nos como
marionetes e se dedicavam a fazer deles os seres que eram.
Foi
assim que, no tempo próprio em que cada espécie encontra um par, não
encontraram ninguém, a não ser um ao outro. Sabiam também ter direito ao amor,
à força universal da atração que justifica a união dos seres, engendrando as
linhas de descendência que acabam por ligar a todos: os deuses, os homens e
mesmo os deuses e homens. Eles seriam sempre únicos; pois, com os dois, toda a
história dos seus encontraria o fim.
Sem
pensar em Lúcia, Pedro chegou ao alto do cerro do qual se avistava o horizonte
ao longe. Era um cerro de pedra de cume achatado no qual dormitavam lagoas
eternas e cristalinas. A chegada foi um instante antes da hora em que o dia se
transforma em noite, e todos os seres e as pedras perderam seus contornos
próprios. Então, tudo se tornou uno.
Pedro
era um duplo: carente e andarilho, herança da mãe; corajoso e esperto caçador,
herança do pai. Há anos, desde o começo da revolução, passava os dias e parte
da noite campeando, olhando aqui e ali, desconfiando de seus passos, vigiando
seus flancos, esperando ser atacado a qualquer momento por homem ou sombra.
Ele
desertara, por causa de Lúcia. Mas mesmo sem tomar parte nas batalhas, estava
na guerra como todos. A morte rondava a pé e a cavalo pelos pagos. Lembrava a
si mesmo disso, como se estivesse se desculpando pelo cheiro de sangue e de
morte entranhado nas ventas. Vivia apartado dos homens, não tinha amigos nem
inimigos. Não sabia o que procurava, não defendia um ideal, apenas desferia
golpes ao acaso, ao léu, ao vento.
A
revolução havia passado perto dali, onde ele vivia com Lúcia. Tudo que havia
sido destruído seria, novamente, construído. Os bichos e os homens que
sobreviveram voltariam a morar na antiga morada. Assim era a guerra, assim
seria a paz, enquanto o mal não revivesse. O terror e a discórdia, o amor e a
paz se alternavam sempre, às vezes, na mesma geração de homens.
No
alto do cerro, Pedro sentia um torpor penetrar por seus poros e paralisar todos
os seus músculos e nervos. Não se sentia mais vigiado, todas as preocupações
abandonaram seu coração, a mente desanuviara-se, a vida ganhara esplendor.
Pedro desejou ter, por um momento, o poder dos homens sábios ou santos para
intervir de maneira decisiva nos acontecimentos do mundo. Mudar o seu destino
ligado ao de Lúcia desde sempre, mudar a condição imposta para viver essa vida.
O
latido de cães, ao longe, resgatou Pedro do torpor e do quase arrependimento.
Abriu os olhos para a noite soturna. Toda terra ao redor, até onde seus olhos
podiam ver ali do alto, estava tomada pela noite mais escura de sua existência.
Somente nas partes baixas que formavam os pequenos vales onde corriam arroios e
sangas pairava uma névoa esbranquiçada, cujos fios pareciam querer escapar do
topo das árvores.
Pedro
retomou seus passos por caminhos de breu. Os cães, que ouvira antes, anunciaram
a sua chegada em casa. Ao aproximar-se de Lúcia, um novo estado de espírito se
apoderou dele, sentia-se sereno. Sabia que Lúcia estava sentindo exatamente o
mesmo.
Sabiam
que nenhum dos dois mudaria depois de ter sentido na pele a carícia das mãos do
outro. Aqueles seriam eles para o resto da vida. E assim, enquanto a Terra
gira, sem se perguntarem se outros antes deles teriam sentido um amor capaz de
proporcionar tamanha infelicidade, continuaram vivendo o que lhes cabiam.
Zélia
Viana Paim
O Ensaio
Petrus encostou-se à parede de cristal no centésimo andar do prédio onde estavam instalados os laboratórios e alojamentos destinados aos cientistas da computação holográfica naquela região do país. Olhou ao longe, muito além dos limites murados da cidadela. Os campos em primeiro plano estavam cobertos de miúdas flores amarelas nascidas muito depois da grande seca. Depois dos campos, onde a vista quase não alcançava, nas fazendas comunitárias de criação de búfalos, os campos de pastagem irrigada eram muito verdes.
No Terraço Circular
Poço dos Espíritos
O Perfume das Magnólias
Tempo de Contrários
Uma História Surreal
Estes fatos que passo a contar aconteceram antes que a região fosse invadida por uma fauna humana constituída de esotéricos e cientistas. Foi no tempo em que a impiedosa seca assolou a região; as manhãs e as noites eram frias, e um vento morno que principiava ao meio dia, enrolava as folhas das árvores, fazendo com que caíssem ainda verdes e forrassem o solo, deixando que os galhos nus, como dedos sem carne, apontassem para todos os lados.
– O
vento da miséria! – reconheciam todos.
Éramos
todos conhecedores dos caprichos do tempo, morávamos no corredor da seca, ao sul
do continente. Estávamos acostumados com a seca nos longos meses de estio;
entretanto, uma seca inclemente igual aquela nunca tínhamos visto, nem mesmo os
cidadãos centenários. O sol parecia jamais repousar no firmamento hostil e
crestava as peles banhadas de suor. O trabalho arrastava-se pela região em
morna lentidão.
Todos
sofriam com fortes dores de cabeça e de garganta por causa do sol que não dava
tréguas. Os açudes da região e, até mesmo, as lagoas, que sempre havia
resistido à estiagem, secaram pela primeira vez. No grande rio exaurido, não
restava um filete de água no leito rachado.
Então,
nesse clima de secura extrema, nossa pequena cidade tornou-se palco de fatos
estranhos. Dizem que tudo começou inclusive a seca extrema, com a construção da
estrada. Quando as máquinas principiaram a rasgar os campos precipitaram-se acontecimentos
estranhos desencadeando na população um misto de assombro, curiosidade e
redobrada fé.
O
novo traçado da estrada que ligava as duas únicas cidades da região exigira a
detonação de cerros, o corte de árvores e a drenagem de banhados e sangas. O
traçado da estrada velha contornava esses obstáculos; embora, não passasse de
um caminho aberto por animais de carga.
Os
moradores diziam que o traçado novo deveria estar há anos no papel, porque, nos
mapas rodoviários da região, a estrada constava como sendo asfaltada. Fato que
causava transtorno em viajantes desavisados. Durante anos, os moradores ouviram
dizer que as verbas se sucediam para a construção, mas desapareciam nos
labirintos da burocracia.
O
certo foi que, numa fatídica manhã, um cerro foi explodido, justamente aquele
da gruta da santinha. Era uma gruta antiga tanto quanto a santinha, de cujo
nome ninguém lembrava mais. Os moradores mais velhos e crédulos visitavam-na
regularmente, acendendo velas fazendo pedidos e em agradecimento às mesmas
graças recebidas. Ao ser mandada pelos ares, com o cerro de pedras no qual fora
caprichosamente assentada, há tantos séculos que ninguém sabia ao certo, a
gruta da santinha caiu no solo intacta sem uma rachadura e com as velas ainda
acesas.
Então,
as peregrinações começaram; primeiro, à noite, depois, durante o dia. As
pessoas comuns, por curiosidade; os antigos devotos, por pura fé e os novos,
por crença recente. Os peregrinos acenderam velas aos pés da Santinha, ao redor
da gruta, pelos caminhos percorridos até ela. A luminosidade era tamanha que
podia ser avistada da cidade, do campo, dos lugares longínquos, do espaço pelos
satélites e destes pelo mundo.
– Os
acontecimentos são estranhos, mas talvez possam ser detidos pela mão do homem –
decretou um dos mais novos vereadores da cidade.
Os
caminhos foram patrulhados por voluntários, e os peregrinos, constrangidos
tanto pelos moradores como pelas forças da ordem local, menos Valentina, a
beata.
–
Ninguém pode conter os desígnios do céu! Olhem os sinais! Olhem para o céu!
Vejam como as estrelas estão brilhantes! Vejam com seus próprios olhos, os
alinhamentos dos planetas! – gritava Valentina, a beata que viera com a
primeira leva de peregrinos. Gritava para um público cada vez maior de lentos e
sedentos fiéis.
Os
últimos acontecimentos estranhos se deram no mesmo dia em que esotéricos e
cientistas invadiram a cidade.
O
dia nasceu com uma nuvem formada por bandos de urubus pairando sobre a cidade,
como se fosse um redemoinho negro. Homens armados com armas de fogo dos mais
diversos calibres atiraram contra o olho do redemoinho. As inúteis saraivadas
de balas, no entanto, não fizeram mossa no impenetrável. Sem sucesso, apelaram
para flechas incendiárias, causando pequenos incêndios, por causa das folhas
secas.
Neste
mesmo dia de ações inúteis, Venerável Fortuna, o vereador mais antigo e
respeitado, reeleito por décadas seguidas, fez mais um discurso inflamado
contra todos. Antes de finalizar sua fala, um ataque de tosse acometeu o velho
vereador que cuspiu folhas verdes e pétalas amarelas.
Aos
olhos de todos os incrédulos presentes, adversários e companheiros de tribuna,
foi transmutando aos poucos no que parecia ser um pé de fedegoso. Ao cabo e fim
do processo exclamou o agrônomo Juarez
–
Agora sim, ele é um pé de fedegoso em flor! – Para o microfone que uma mão
anônima lhe estendia disse enfático: – Senna macranthera é o nome
científico da espécie na qual o nome vereador transmutou-se.
Os
galhos da árvore recém-formada do homem subiram para os céus, alcançando o
bando de aves negras. Ao toque dos galhos mais altos, o impenetrável redemoinho
desfez-se numa intensa luz violeta, cegando os presentes. Quando puderam abrir
os olhos novamente, libélulas azuis voavam pelas flores amarelas da árvore, e
gatos, às dezenas, pelo chão, rondavam as libélulas.
Só
Valentina, a beata, sorria.
–
Bem-feito! Eu avisei! – falou, abrindo a sombrinha estampada com flores
amarelas no momento em que as primeiras libélulas começaram a cair.
Milhares
de libélulas ao tocarem o solo, momentaneamente tornavam-se velas acesas para
em seguida desaparecerem, para congraçamento dos homens e desapontamento dos
gatos. Isso foi tudo que aconteceu num só dia antes que copiosa chuva caísse e
cada um retorna-se para casa.
Zélia
Viana Paim






