domingo, 4 de dezembro de 2011

A passeata, a lista e o graveto seco


Era uma vez uma cidadezinha onde os moradores sabiam por experiência própria que a um tempo de trevas sucede um tempo de luz, de clara serenidade ou de calma inquietante. Esta é a eterna lei. Essa é a certeza que provoca a melancolia nos homens.
Algures... a sombra poderia estar se movendo, tentando libertar-se de anos de cativeiro, de insuportável estagnação, monstruosa e sedenta de sangue e dor. A essência do pior que poderia constituir o ser humano vicejaria.
Essa, em tempos passados, encontrou terreno fértil em Bernardo Badoo. Quieta e silenciosa, a vida parecia aguardar a destruição que ele deixava a cada passo. Badoo era uma sombra que emergia das sombras no total anonimato com uma força inacreditável.
Na cidadezinha, deram a atenção que costumavam dar à chegada de uma nova família de moradores: nem júbilo nem desprezo, apenas a mera curiosidade moveu os moradores. A família chegou composta pelos pais e duas filhas solteironas.
Os moradores não cogitaram pensar o motivo da mudança daquele que se dizia major reformado para um lugar tão pequeno, suficientemente, guarnecido apenas por meia dúzia de soldados. Também não desconfiaram que o tal major tomasse nota dos hábitos noturnos dos moradores da cidadezinha desde que se estabeleceu com a família na casa dos sete arcos.
Badoo queria saber a que horas jantavam, quanto tempo que ficavam à mesa e a demora da conversa logo após a janta. Segundo pensava aquele homem, essas eram horas cruciais, porque, de estômago cheio, as famílias conversavam sobre seus segredos e decidiam o rumo de suas vidinhas.
Pelas sombras das noites, o major deslizava sorrateiramente, encostando o ouvido às portas e janelas das casas. Badoo maldizia as grossas portas de madeira esculpidas em baixo relevo e se extasiava frente às portas finas e àquelas com frestas. Queria ver ou ouvir por trás de cada uma delas um antro, um covil, uma corja da pior espécie.
A ânsia de encontrar alguma coisa, descobrir um segredo, um pecado, uma culpa lhe deixava a respiração ofegante e a garganta seca, obrigando-o a tirar do bolso uma garrafa de metal de tempos em tempos. Dela, arrancava com os dentes a rolha presa por um barbante, levava o gargalo à boca e sorvia seu líquido amargo com vagar. Sentia os pêlos de seus braços e nuca se eriçarem, sacudia-se como um bicho de pêlos molhados.
Enquanto espreitava os moradores, arquitetava as denúncias que faria depois de dar por acabada a diligência. Esfregava as mãos e babava de prazer nos becos escuros ao imaginar os castigos que ele mesmo infringiria aos culpados. Principalmente, aos culpados pelo declínio do patriotismo.
O destino, no entanto, era como o vento que fazia voltas na casa dos sete arcos, farfalhando as folhas, entrando pelas janelas, roçando às paredes e entortando os quadros. O major, sem dar importância ao vento do destino, enchia cadernos anotando segredos e culpas dos moradores.
Esgueirando-se rente às casas - ora volteava sobre si mesmo, ora retomava seus passos, ora seguia em frente - era como um dançarino solitário que ensaiasse os mesmos passos noite após noite. Como ou quando passou a ser seguido por bugios e a ter seus gestos imitados por eles, nunca soube nem viu. Aos bugios que faziam das praças da cidade seu habitat, outros se ajuntaram, vindos das matas próximas. A escuridão da noite escondia essa passeata do absurdo balizada por Badoo.
Badoo só não ignorava uma dor profunda no dedo indicador da mão direita. Ele passou a dormir cada vez menos; durante o dia, retomava seus passos. A partir das anotações feitas, elegeu uma lista de nomes dos moradores, ladeados pelo relato de todos os segredos e culpas. Esta seria entregue no comando geral na cidade vizinha.
Major Badoo sonhava de olhos abertos com as palmas para o discurso que proferiria frente aos comandantes. De seus olhinhos miúdos e estreitos escorria pequenas gotículas de suor ao se imaginar condecorado com medalha de mérito pelos serviços prestados à pátria.
Enfim, pensava ele, teria seu objetivo alcançado, depois de toda a incompreensão, de toda falta de agradecimento pelo trabalho que realizara nos subsolos da pátria: anos passados em câmaras escuras e mal cheirosas a sangue, urina, fezes, maldade e medo, obrigando homens e mulheres a confessarem seus crimes.
Os rostos feitos estampas do terror jamais perturbaram seu sono. Nada sentia. Jamais ofereceu de si a compaixão. Zombava do medo que seus confrades tinham das torturas de uma posteridade infernal.
– As mortes eram somente um mal necessário, os ossos do ofício que me delegaram – balbuciava e concluía cuspindo: – Mortes sem glória!
Enquanto Badoo sucumbia a sua atração patológica pelo mal, os moradores da cidadezinha, alheios à hostilidade da insana criatura, tentavam entender o motivo de serem invadidos por um expressivo número de bugios à noite. A maioria concordava que o fato inusitado estaria anunciando uma seca devastadora; embora, alguns moradores chamassem atenção para o verde viçoso que matizava as matas dos arredores. Seria, disseram então, outro desastre natural anunciado, mas não entendido.
O que não esperaram foi que o desastre tomasse a forma de uma lista de nomes. Oito meses e dezenove dias depois da mudança do dito major para a cidadezinha, os moradores souberam de uma lista onde constavam dois mil quinhentos e cinco nomes, independentemente, de credo, posses, parentesco e importância.
Os cidadãos cujos nomes faziam parte da tal lista, além de serem culpados pelo declínio do patriotismo, eram acusados de roubo, adultério, abortos, incestos e ateísmo. A lista permaneceu em segredo guardada a sete chaves no destacamento. Por isso mesmo uma cópia correu de mão em mão pela cidade. Curiosamente, a ordem dos nomes correspondia à disposição das casas nas ruas.
A seguir, as famílias que não faziam parte da lista passaram a ser alvo de desagravo. Chegaram mesmo a se refugiar por dias em suas casas. Uma nova ordem reinou na cidadezinha. Cada vez que saíam furtivamente às ruas, os bugios não apenas roncavam, mas lhes jogavam fezes. Os moradores reagiram jogando água com creolina nos bugios. Longos conflitos se seguiram até os bugios perderem quase todo pêlo.
Deixando de lado os bugios, moradores listados e não-listados uniram-se para descobrir o infame acusador. Leram e releram a tal lista, uns apressadamente, outros com irritante vagar. Vasculharam ruas claras e iluminadas e becos escuros e limosos. A única casa livre da imundície dos bugios e com moradores isentos de agressão era a do major Badoo.
Concomitante a essa descoberta surpreendente, pois o major nem era da cidade, um estranho fato aconteceu: caturras invadiram a cidade aos bandos, arrasando o pomar da casa dos sete arcos; comendo as frutas, os brotos e as folhas; descascando o tronco e os galhos das árvores; bicando as quinas das janelas e portas.
Na cidadezinha, nem tudo era espanto e vergonha. Os moradores feridos e enxovalhados trataram as feridas pelo corpo e suplicaram pelas suas almas atônitas. Os bugios quase sem pelos sumiram nas matas. A água com sabão lavou as calçadas e as fachadas das casas, escorrendo pelo solo encheu de espumas o rio já combalido, provocando uma mortandade de peixes.
Os moradores se dispuseram a impedir que Badoo viesse a imergir a cidade em trevas novamente, a dar vazão a velhas e novas desavenças por conta de segredos já sepultados no esquecimento. Procuraram então saber as sem-razões do major para se imiscuir em seus segredos.
Aqueles escolhidos para a tarefa encontraram-no em casa, sentado à cabeceira de uma mesa longa coberta com uma toalha alvíssima engomada de tal maneira que era inútil procurar uma mancha ou uma ruga no tecido. Estava só, a família abandonou a cidade com o ataque das caturras. A delegação de moradores também não esquentou a cadeira.
– Não vale à pena, o homem é uma sombra, de perto nem parece humano – disseram à saída.
Nos instantes em que ficaram frente a frente com o major não acreditaram no que seus olhos viram. O dedo indicador da mão direita era enegrecido e seco como um graveto. A negritude alastrava-se em sulcos profundos pela mão e pulso acima, secando o caminho percorrido.
Anos mais tarde, a velha senhora que contou essa história para a neta disse que, naquela mesma noite, sonhara com um barco com velas rotas vagando a deriva no rio. Nele, um bugio negro postava-se a frente de incontáveis portas usando um graveto seco como chave.

Zélia Viana Paim
Imagem Bugios - São Francisco de Assis (RS-Brasil) 

Um comentário:

  1. Há algo de realismo mágico neste texto! Gostei!
    Abraços Literários!

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