Rafaela caminhou por quadras e mais quadras, foram tantas que não sabia mais precisar exatamente o número. A intenção dela era fugir de tudo aquilo que teimava em se mostrar como se fossem as escolhas mais importantes em sua vida, aquelas que a forjaram uma fugitiva.
Embora fosse paradoxal, queria mesmo fugir de todos os fatos e de todas as pessoas neles envolvidas, conjunção que a levou por este caminho que a trouxe até essa vontade de desaparecer caminhando numa calçada sem fim.
No longo percurso ela desejara mais que tudo dar de cara com o
medo novamente. Esse não sentir medo fazia com que não desse a mínima
importância para as preocupações daqueles que ficaram na casa quando dela saíra
pela porta dos fundos com movimentos élficos e sem dizer palavra alguma, só
para ir ali em frente na praia.
Era uma zona do litoral sul do continente,
era noite e a maioria das casas de veraneio, já sem moradores por causa do fim
da época mais quente, estava fechada àquela hora. Quase ninguém se aventurou a
sair naquele tempo um pouco mais frio e com tamanha maresia. O sal penetrava na
pele, nos olhos, na língua, pelo nariz causando uma sensação de amplitude nos
pulmões impedindo que o cansaço alcançasse a velocidade de seus passos.
Só ela caminhava àquela hora, avistou um
pouco antes quatro pessoas que saíram juntas de uma das entradas nas dunas que
ia dar à praia e sumiram na escuridão da rua em frente. Apenas um ônibus, sem
passageiros com as luzes do interior acesas, movimentou a rua dobrou numa
esquina e desapareceu na escuridão marcada aqui e ali pelos postes de luz opaca
e intermitente.
Ela caminhava na linha do mar para o ermo,
desafiando a escuridão e as casas vazias que se sucediam formando as
cidadezinhas praianas, com suas fronteiras demarcadas por placas brancas com
letras pretas que as nomeavam, sem um rio ou um vazio sequer entre elas que as
individualizasse.
Desejava, sem muita vontade, entrar por um
portal aberto para outro mundo que a levasse para uma outra vida. Não que ela
se importasse realmente com isso, o único tormento eram os chinelos de dedos
usados com meias que dificultavam seu caminhar na calçada inclinada ou na
sarjeta com areia solta e fofa acumulada pela última fúria das ondas. Era
impossível caminhar pela rua de pedras com bordas inclinadas e cortantes.
Não colocara tênis porque não pensara premeditadamente
caminhar tanto, mas apenas ir ali à beira mar em frente a casa deles e ficar um
pouco imersa no negrume da noite sem lua. Ao retornar para casa, decidiu
caminhar até a esquina próxima justamente porque não havia ninguém, nem os
gatos costumeiros marcando terreno aqui e ali.
Agora Rafaela caminhava desafiando o medo
a encontrá-la novamente, o medo de um ataque brutal pelas costas ou pela frente,
uma faca fina entrando bem na sua medula ou na sua cara, ao passar por qualquer
uma daquelas esquinas ou casas vazias. Um medo que a fizesse sentir um frio lhe percorrer a espinha ou lhe revirasse o estômago antes de se concretizar em
algo mais palpável, como um vômito, por exemplo.
Talvez depois voltasse para casa para enfrentar
aquele inferno que era deles. Quanto a isso, nada poderia fazer, não
tinha sido por sua própria vontade cair nessa armadilha que a afastou de quase
todas as outras pessoas que havia conhecido.
Cedo, ainda nos primeiros anos de escola, Rafaela havia se dado conta do que estava acontecendo com ela. Bem antes de sua mãe lhe dizer que era um ser especial e depois a levar ao velho tio médico. Ele encostou a cabeça em seu peito e costas e ouviu seu coração e seu pulmão, vasculhou, atentamente, todas as aberturas de sua cabeça com objetos metálicos e frios imersos em um pequeno estojo de alumínio fumegante, cheio de água fervente, sob um pequeno fogareiro em chamas.
Parecia uma jovem vampiro tratada a litros de sangue. O velho médico evitou ou não soube explicar porque no espaço de um ano Rafaela, que era tão pálida, quebradiça e sem graça, tornara-se graciosa, colorida e cheia de vida, sem que um agente externo e novo lhe fosse administrado. Os dentes de leite caíram na hora certa, dando lugar a dentes simétricos e alvos, sua curva de crescimento era só um pouquinho acima da média, não tinha um grama de gordura a mais no corpinho esbelto, os cabelos cresciam sem cair um fio e as unhas eram fortes e rosadas.
O velho tio sabia, mas desconfiava que tudo começou com a chegada de Leonora, a única irmã da mãe de Rafaela. A tia era casada e morava não se sabia onde com o marido há mais de quarenta anos. Em suas visitas sempre trazia para Rafaela uma mala abarrotada de presentes tão exóticos que a menina não sabia como brincar com eles.
Mas em uma das vezes, um dos presentes chamou a atenção
da menina, uma pequena caixa de lápis de cor, enfeitada com desenhos de camelos
e sinais retorcidos incompreensíveis. Antes que a intenção de pegar a caixa
houvesse se manifestado, sua tia disse: – Não coloque os lápis de cor na boca,
querida.
No instante seguinte, Rafaela abriu a caixa que revelou quatro fileiras de lápis de cor, grandes, brilhantes em um perfeito degrade de cores do branco ao preto, passando por cores nunca vistas. A tia estendeu-lhe uma folha de papel amarelado e áspero que retirou de um estojo no fundo da mala.
Rafaela pegou um lápis cor de maravilha, passando-o de
uma mão para outra, rabiscou uma linha no papel produzindo um ruído baixo,
colocou a ponta do lápis na boca para molhar a ponta com a saliva, para ver se
assim a cor ficaria mais forte. A tia quase a impediu, mas retrocedeu seu
gesto.
Pouco tempo depois a folha estava
rabiscada de todas as cores e os olhos de Rafaela brilhavam como nunca vistos
antes. A tia esperava sinais da mudança que se operava de forma radical. Quando
Rafaela ergueu os olhos da folha e piscou várias vezes, esfregando-os,
confirmou que transformação havia iniciado. Rafaela olhou para os dedos
apertados em torno do lápis e para a folha amarelada e áspera, levantou os
olhos e viu os fragmentos de pó róseo que brilhavam e dançavam ao seu redor e
as pequeninas luzes alvas que pareciam furar o espaço manifestando-se em seu
mundo para desaparecer novamente, sentiu o movimento no ar que se expandiu a
partir dela, para novamente retornar como uma onda carregando perfumes de
outros mundos.
A tia partiu novamente, os anos passaram. Desde
então a vida ordinária tornara-se como uma face dentre tantas outras a serem
vividas. Essas faces em que Rafaela se embrenhava pelos caminhos, como se fosse uma caminhada
sem fim foram um bálsamo para carregar o prêmio ou a desolação do lento
envelhecimento. O que Rafaela não queria mais pensar, mas que vinha à tona a
cada passo cada vez mais forte, era a certeza de que morreria depois de todos.
Agora estava frio, havia chovido a semana inteira e o mar estava com ressaca aquela hora da noite escura, enquanto Rafaela caminhava rumo a um amanhecer qualquer às margens daquele mar. Então, quando o sol nasceu, quando abriu os olhos, a sombra de grãos e torrões de areia, pedras, conchas e plantas tomava a forma de minúsculas cidadelas na areia onde ela dormiu. Cidadelas destruídas pelos passos de Rafaela.
Passos que a levaram a uma rua reta, cortada por outras tantas ruas retas de um lugar em ruínas. No centro desse lugar, treze carroças formavam um círculo, onde homens e mulheres se misturavam assim como as línguas que falavam. Fragmentos de pó róseos brilhavam em torno deles. Nesse lugar anônimo, viu sua tia. Leonora, e todos os outros a viram assim que ela entrou no círculo formado pelas carroças. Eram homens e mulheres aparentando a mesma idade que Leonora tinha da última vez que a viu há 30 anos, e agora. Rafaela soube que todos eram como ela.
Zélia Viana Paim






