Estes fatos que passo a contar aconteceram antes que a região fosse invadida por uma fauna humana constituída de esotéricos e cientistas. Foi no tempo em que a impiedosa seca assolou a região; as manhãs e as noites eram frias, e um vento morno que principiava ao meio dia, enrolava as folhas das árvores, fazendo com que caíssem ainda verdes e forrassem o solo, deixando que os galhos nus, como dedos sem carne, apontassem para todos os lados.
– O
vento da miséria! – reconheciam todos.
Éramos
todos conhecedores dos caprichos do tempo, morávamos no corredor da seca, ao sul
do continente. Estávamos acostumados com a seca nos longos meses de estio;
entretanto, uma seca inclemente igual aquela nunca tínhamos visto, nem mesmo os
cidadãos centenários. O sol parecia jamais repousar no firmamento hostil e
crestava as peles banhadas de suor. O trabalho arrastava-se pela região em
morna lentidão.
Todos
sofriam com fortes dores de cabeça e de garganta por causa do sol que não dava
tréguas. Os açudes da região e, até mesmo, as lagoas, que sempre havia
resistido à estiagem, secaram pela primeira vez. No grande rio exaurido, não
restava um filete de água no leito rachado.
Então,
nesse clima de secura extrema, nossa pequena cidade tornou-se palco de fatos
estranhos. Dizem que tudo começou inclusive a seca extrema, com a construção da
estrada. Quando as máquinas principiaram a rasgar os campos precipitaram-se acontecimentos
estranhos desencadeando na população um misto de assombro, curiosidade e
redobrada fé.
O
novo traçado da estrada que ligava as duas únicas cidades da região exigira a
detonação de cerros, o corte de árvores e a drenagem de banhados e sangas. O
traçado da estrada velha contornava esses obstáculos; embora, não passasse de
um caminho aberto por animais de carga.
Os
moradores diziam que o traçado novo deveria estar há anos no papel, porque, nos
mapas rodoviários da região, a estrada constava como sendo asfaltada. Fato que
causava transtorno em viajantes desavisados. Durante anos, os moradores ouviram
dizer que as verbas se sucediam para a construção, mas desapareciam nos
labirintos da burocracia.
O
certo foi que, numa fatídica manhã, um cerro foi explodido, justamente aquele
da gruta da santinha. Era uma gruta antiga tanto quanto a santinha, de cujo
nome ninguém lembrava mais. Os moradores mais velhos e crédulos visitavam-na
regularmente, acendendo velas fazendo pedidos e em agradecimento às mesmas
graças recebidas. Ao ser mandada pelos ares, com o cerro de pedras no qual fora
caprichosamente assentada, há tantos séculos que ninguém sabia ao certo, a
gruta da santinha caiu no solo intacta sem uma rachadura e com as velas ainda
acesas.
Então,
as peregrinações começaram; primeiro, à noite, depois, durante o dia. As
pessoas comuns, por curiosidade; os antigos devotos, por pura fé e os novos,
por crença recente. Os peregrinos acenderam velas aos pés da Santinha, ao redor
da gruta, pelos caminhos percorridos até ela. A luminosidade era tamanha que
podia ser avistada da cidade, do campo, dos lugares longínquos, do espaço pelos
satélites e destes pelo mundo.
– Os
acontecimentos são estranhos, mas talvez possam ser detidos pela mão do homem –
decretou um dos mais novos vereadores da cidade.
Os
caminhos foram patrulhados por voluntários, e os peregrinos, constrangidos
tanto pelos moradores como pelas forças da ordem local, menos Valentina, a
beata.
–
Ninguém pode conter os desígnios do céu! Olhem os sinais! Olhem para o céu!
Vejam como as estrelas estão brilhantes! Vejam com seus próprios olhos, os
alinhamentos dos planetas! – gritava Valentina, a beata que viera com a
primeira leva de peregrinos. Gritava para um público cada vez maior de lentos e
sedentos fiéis.
Os
últimos acontecimentos estranhos se deram no mesmo dia em que esotéricos e
cientistas invadiram a cidade.
O
dia nasceu com uma nuvem formada por bandos de urubus pairando sobre a cidade,
como se fosse um redemoinho negro. Homens armados com armas de fogo dos mais
diversos calibres atiraram contra o olho do redemoinho. As inúteis saraivadas
de balas, no entanto, não fizeram mossa no impenetrável. Sem sucesso, apelaram
para flechas incendiárias, causando pequenos incêndios, por causa das folhas
secas.
Neste
mesmo dia de ações inúteis, Venerável Fortuna, o vereador mais antigo e
respeitado, reeleito por décadas seguidas, fez mais um discurso inflamado
contra todos. Antes de finalizar sua fala, um ataque de tosse acometeu o velho
vereador que cuspiu folhas verdes e pétalas amarelas.
Aos
olhos de todos os incrédulos presentes, adversários e companheiros de tribuna,
foi transmutando aos poucos no que parecia ser um pé de fedegoso. Ao cabo e fim
do processo exclamou o agrônomo Juarez
–
Agora sim, ele é um pé de fedegoso em flor! – Para o microfone que uma mão
anônima lhe estendia disse enfático: – Senna macranthera é o nome
científico da espécie na qual o nome vereador transmutou-se.
Os
galhos da árvore recém-formada do homem subiram para os céus, alcançando o
bando de aves negras. Ao toque dos galhos mais altos, o impenetrável redemoinho
desfez-se numa intensa luz violeta, cegando os presentes. Quando puderam abrir
os olhos novamente, libélulas azuis voavam pelas flores amarelas da árvore, e
gatos, às dezenas, pelo chão, rondavam as libélulas.
Só
Valentina, a beata, sorria.
–
Bem-feito! Eu avisei! – falou, abrindo a sombrinha estampada com flores
amarelas no momento em que as primeiras libélulas começaram a cair.
Milhares
de libélulas ao tocarem o solo, momentaneamente tornavam-se velas acesas para
em seguida desaparecerem, para congraçamento dos homens e desapontamento dos
gatos. Isso foi tudo que aconteceu num só dia antes que copiosa chuva caísse e
cada um retorna-se para casa.
Zélia
Viana Paim






