A mariposa

Valquíria decidiu ir embora da casa materna onde morava com a sua irmã Jade e o marido desta, Ludovico. A decisão era definitiva; embora, amasse e admirasse Jade, muito mais do que as outras irmãs e soubesse que ali sempre seria seu lugar, se essa fosse a sua vontade. Ela ansiava seguir o caminho, cujo traçado invisível a levaria ao seu destino final, conforme explicou à sua irmã.
Com a morte da mãe sentia-se à deriva num mar que se alternava entre calmaria e tormento, sem um farol que lhe guiasse a um porto seguro, onde pudesse salvar-se dos reveses do devir. Sem timo nem rumo, decidiu partir, confiando que chegaria ao lugar que, nesta vida, lhe fora destinado encontrar. Sete meses se passaram, desde o dia da decisão ao dia marcado para a partida. Embora isso não fosse decisão que se tomasse, pois ela sabia correr o risco de não partir jamais.
Desde que se conhecia por gente, ela sabia-se diferente das outras irmãs. Diferença que com o findar dos anos de meninice a aproximava mais e mais de sua mãe, que, por sua vez, também era diferente das outras mães. Lisa, a mãe de Valquíria, tinha permanentes no rosto um sorriso a lhe curvar o canto dos lábios para cima e uma alegria que fazia brilhar os olhos negros como a noite.
Às vezes, a menina julgava entrever nesse conjunto, que parecia tão doce e meigo, uma ironia brutal. Esta coincidia com as noites de lua quando Jade benzia a irmã fazendo o sinal da cruz com água benta na sua testa, boca e peito à altura do coração. No instante mesmo em que se iniciava esse ritual, erguia-se outro, numa conversação, numa risada fina audível somente para Valquíria. A esse ritual secreto, que lhe preenchia de um amor imenso e que lhe aguçava todos os sentidos, ela se entregava como um instrumento musical ao seu afinador.
Entre lembrança e esquecimento, os meses de espera passaram.
Na estação de trens, Valquíria comprou passagem para a cidade em cujo nome seus olhos bateram ao buscarem um lugar na lista escrita num painel desbotado: Poço dos Espíritos. Na despedida, Jade, mais uma vez, fez o ritual de benzedura da irmã. Desta última vez Valquíria tinha lágrimas nos olhos e uma emoção que lhe apertava a garganta com mãos de ferro e afligia o peito em cujo âmago o coração batia acelerado.
O trem partiu.
A tarde era morna e a noite caía devagar nos campos, matas, rios, vilas, cidades. Nas estações de trens, embarcavam e desembarcavam pessoas. Novamente desfilavam campos, matas, rios, vilas, cidades e, nas estações de trens, embarcavam e desembarcavam pessoas. Cansada de estações que se sucediam iguais a si mesmas, dos movimentos desiguais das pessoas, do barulho e do sacolejar ritmado do trem, Valquíria trancou a porta da cabine onde viajava sozinha, cerrou as cortinas das janelas que davam para o corredor, deitou-se, dormiu e sonhou.
No sonho, seguia uma mariposa, cujo colorido das asas formava desenhos regulares, do castanho ao branco, que variavam de acordo com a mais tênue alteração de luz chegando ao lilás. Embrenhava-se por matas desconhecidas até chegar à frente de um casarão cercado por um sem par de frondosas árvores em flor. Nesse lugar, perdia de vista a mariposa e espreitava por entre as grades do portão um vulto de homem na janela.
No casarão, Augusto olhava a lua cheia que iluminava a terra, motivo de uivos e ganidos dos cães ao redor. Um vento morno percorreu mansamente o peito nu enquanto uma enorme mariposa pousou no mosqueteiro de tule do berço onde dormia a recém nascida. Augusto sorriu ao lembrar que, na sua infância, Branca, a cozinheira, lhe contara histórias sobre as mariposas.
– Estas mariposas são mulheres bruxas que se transformam e bebem o sangue de recém nascidos, sugando pelo umbigo.
Na cama, ao lado, a mãe da menina parecia dormir com um sorriso nos lábios. Ele julgou ver nesse conjunto, que parecia tão doce e meigo, a sombra de uma ironia. Uma sombra apenas, quase nada como no primeiro dia em que a viu.
O trem corria compassado e célere no dorso do mundo.
Na cabine Valquíria acordou do sonho, com raios dourados penetrando pela fresta da janela. Foi assim que, no seu presente, as sombras douradas da fresca manhã encontraram o trem que a carregou até Poço dos Espíritos. Ao desembarcar, o silêncio assustou-a. A estação de trens estava vazia, as ruas estavam vazias, o mundo parecia vazio como o recomeço dos tempos. Então ela o viu. Longos cabelos negros, corpo esguio e olhos serenos.
– Ele é mesmo belo e parece feliz – murmurou para si mesma.
A certeza era desnecessária, porque o encantamento dela pelo cumprimento de parte seu destino sobrepunha-se. Augusto, por sua vez, se perguntou, então, se a força dos acontecimentos no espaço e no tempo não era apenas um amontoado de coincidências. Justo naquela manhã dourada e fresca, uma figura de mulher brincou com seus sentidos e com sua razão. Por um segundo ele pensou que, bela e imóvel, ela bem poderia ser uma aparição, com o vento fazendo esvoaçar as vestes leves que delineavam o corpo perfeito.
Os dois seguiram mudos ao encontro do outro, obedecendo à força da atração que agiu sobre eles e a qual nem pensaram em resistir. Esqueceram-se de que a paixão era repentina como a morte desde sempre. Valquíria sentiu na boca o doce gosto do mel. Sorriu. Augusto por um instante julgou vislumbrar no conjunto doce e meigo a sombra de uma ironia. Por um instante pensou em retroceder ou estancar os passos que o levavam para ela.

Zélia Viana Paim