A boca do vento

Bina acordou cedo, ela pretendia pegar o ônibus às cinco e meia. Tomou um café forte sem açúcar em pé mesmo ao lado da pia da cozinha e saiu para o ar seco e frio do sábado. Bateu a porta sem querer, não pretendia acordar ninguém, principalmente, o pai. O vento começou quando seus pés calçados com botas gastas tocaram a terra.

Setembrina era o seu nome, por obra da parteira que a ajudou a nascer no dia em que começou a ventania, e o lixo espacial caiu espalhando-se pela região há dezesseis anos. A mãe de Bina havia parido tantos filhos que nem tinha mais gosto para escolher um nome pra filha.

– Setembrina é um bom nome – disse a parteira e emendou – no fim, ela vai acabar sendo Bina mesmo, que é muito mais bonito, mas não é nome de gente deste mundo.

Bina riu dessa lembrança contada e quase perdida, prendeu o cabelo com um elástico, colocou os óculos de soldador de lentes enegrecidas e subiu a rua, maldizendo a poeira que levantava com a ventania. A cidade ainda dormia àquela hora com as janelas, portas e portões fechados. Ela caminhava pelo meio da rua porque naquela parte da cidade os calçamentos tinham virado areia e restos de pedras arredondadas.

Ela procurava não pensar na noite passada na casa do pai. Os olhos ardiam, estava cansada, dormiu tarde, muito depois que o pai parou de andar pela noite adentro. Havia noites em que ele parecia estar em outro mundo. Esta noite havia sido uma delas.

Assim que a noite caiu, armado com um revólver sem balas, espiava para fora por traz das cortinas das janelas e pelas frestas das portas, mirando um bandoleiro invisível que rondava a casa para roubar e matar.

Era um mundo assobrado, como se ele pudesse ver seus grandes medos em seu encalço naquelas noites tenebrosas. Bina pensava que o mundo dela também era feito de fatos incomuns. Para ela, o medo não era nada comparado à maldição.

– Dizer o que da maldição? - perguntou e continuou: - Pessoas dizem que a maldição pode ser transformada em dom.

Bina achava que não.

– Maldição não é uma coisa a ser enfrentada, somente se aceita viver assim como um ser amaldiçoado.

Falou para o vento:

– Ou uma cidade amaldiçoada, como essa.

As cidades da região foram as que primeiro sofreram com o vento e a seca que assombrou a região por anos, os campos foram secando, e então a maioria das cidades não sobreviveu.

Bina desconhecia a cidade próspera de antes. Para ela, sempre foi assim: ruas sem pavimentação ou calçamento, paredes descascadas de sua tinta original, enormes pedaços de metal retorcido do lixo espacial e campos quase desérticos ao redor.

Bina cortou caminho pelas ruas vazias, desviando do lixo reluzente até a estação rodoviária, que estava quase vazia quando chegou. Era um prédio antigo, padronizado, com letreiros desbotados e paredes descascadas.

A um canto, à esquerda, uma mulher sentada no chão e rodeada de cestos de plástico trançado com desenhos coloridos, de tamanhos e formatos variados, parecia estar acordando no momento em que olhou para Bina.

No canto oposto, sentada em um banco de cimento, uma mulher jovem acendeu um cigarro no outro. Olhou para Bina e tragou com prazer suicida, soltando uma baforada farta e branca que se desfez ao vento.

Bina sentou-se em outro banco igual, a uma distância considerável da mulher e de suas baforadas. Um silêncio profundo tomou conta do lugar, quebrado por latidos distantes e choro de criança faminta ali por perto.

Algum tempo depois, chegaram três soldados que caminhavam se empurrando, rindo e falando alto ao ponto de se engasgarem e cuspirem para o chão ao mesmo tempo. Quando deram com os olhos em Bina, se calaram, sem antes falarem mal do tenente e chamarem o sargento de florzinha.

Enfim, as portas da rodoviária se abriram e todos se dirigiram aos guichês onde duas mulheres vendiam as passagens. Uma das mulheres, com o controle remoto, mudava os canais da televisão estatal na parede em frente sem olhar.

Enquanto o ônibus azul e verde da empresa Nova Fronteira estacionava, chegou mais um passageiro, um senhor tão velho que parecia feito só dos sulcos de suas próprias rugas.

Com as passagens compradas, rumaram para seus lugares no ônibus, em um ritmo solene, como se fosse uma dança com os mesmos gestos longamente ensaiados.

Quando o ônibus partiu, a mulher dos cestos ficou olhando desolada, como se lhe roubassem velhos amigos, conhecidos de longa data, outras eras, outros mundos, convidados de uma festa imaginária.

No ônibus, todos os passageiros, menos Bina e a jovem fumante, empenharam-se em uma conversa séria, apropriada para aquela hora da manhã.

Bina recostou-se melhor na poltrona gasta e dormiu embalada pelas vozes cada vez mais distantes.

Sonhou.

Estava em um castelo erguido no meio de um campo de ninguém. As janelas batiam, as portas rangiam sopradas por um vento escaldante. Uma poeira fina e vermelha entrava pelas portas e janelas abertas.

Os raios de luz na poeira eram como grandes pernas de um inseto gigante feito de minúsculos pontos flutuantes. No centro dessa sala vermelha, ela dançava uma dança solitária, acompanhando num rodopiar febril e descompassado a música nos seus ouvidos.

Acordou suada e sorrindo.

O ônibus sacolejando chegou ao seu destino: a rodoviária de Rincão dos Butiás. Era um prédio igual a outra cidade qualquer. O que a fazia singular era um pedaço enorme de lixo espacial brilhante encravado na calçada, como uma seta que a prefeitura não conseguiu arrancar, apesar das infindáveis e fracas tentativas nestes dezesseis anos.

No ônibus, os passageiros ainda conversavam.

– Chegamos! – disse o senhor feito de rugas.

– Cidadezinha velha, ruim de trabalho e, ainda por cima, com esse vento que levanta sem aviso, seu João – respondeu um dos passageiros.

Bina sentou-se melhor, jogou para trás os cabelos de hidra, esperou que os passageiros descessem e resmungou para si mesma:

– Só o que me falta é morrer neste fim de mundo, nesta cidadezinha, nesta boca escancarada que sopra o vento no mundo sem parar.

Calou-se, pensando e resmungou de novo:

– A primeira coisa que vou fazer é ir ao cemitério. Todos os meus mortos estão lá. Elas em maior número que eles. E se for esse meu destino, nascer e morrer aqui? Inferno! Isso sim seria pior que a maldição.

Uma mulher jovem e forte com um filho dormindo nos braços caminhava no corredor do ônibus. A cabeça loira estava recostada no ombro da mulher e da boca aberta escorria uma baba cristalina.

– Será que começaram a engarrafar baba de criança pra vender? – se perguntou Bina.

A mulher olhou para Bina curiosa. Mas ela estava acostumada a falar sozinha, olhares tristes, curiosos ou enviesados eram o que menos lhe importava na vida.

– E se este ônibus me levasse mesmo para uma Nova Fronteira, um lugar em que o todo poderoso criador tivesse tocado com o dedo e dito quando nasci: – Encontra-o, criatura! - murmurou para quem quisesse ouvir, mas ninguém olhou para ela.

Bina deu de ombros, arrumou a longa cabeleira prendendo-a novamente com o elástico, passou a mão pela roupa amarrotada, tateou a chave no bolso do jeans e as poucas moedas que restavam. Saiu do ônibus, tentando adivinhar o que restaria ainda de seu destino ingrato de nascer com o vento.

Bina tocou a terra vermelha com a ponta das botas gastas, o vento recomeçou. Um vento inplacável que arrancava as folhas das árvores e as varria para além dos muros, das casas, dos túmulos, dos templos, da cidade, daquela região, transformando as ruas em areia e em restos de pedras arredondadas.