Cândida contou a Branca que naquela noite sonhara com um barco vagando a deriva num rio de águas escuras e sem margens. No barco, um bugio negro postava-se a frente de incontáveis portas chaveando-as com um graveto seco.
No sonho, viu-se ante uma das portas que se
abriu para uma câmara escura e mal cheirosa. Na câmara uma profusão de gaiolas
de tamanhos variados aprisionava belíssimos pássaros cegos e mudos.
O sonho repetiu-se por três noites
seguidas. Na manhã da terceira noite, Cândida e Branca rondaram a casa dos sete
arcos, mal havia amanhecido o dia.
Depois de várias tentativas, bateram à
porta, que se abriu ao toque de seus dedos. Ao entrarem, deram com o major Moreira
morto, sentado à mesa, enegrecido, seco e sem cheiro algum, como um rato envenenado
há muito. A cidade já havia falado aos quatro ventos o inusitado fato.
Então, ignorando o cadáver esturricado do
major, as duas mulheres benzeram-se. Cândida pediu proteção ao santo anjo e
Branca tirou da bolsa um santinho com a imagem de São Jorge erguendo-a sobre a
cabeça murmurava:
- Estamos vestidas e armadas com as armas
de São Jorge para que nossos inimigos, não nos alcancem, não nos peguem, não nos
vejam, e nem em pensamentos possam nos fazer mal.
As duas correram pela casa, abrindo todas
as portas fechadas. A última porta dava para uma peça escura repleta de gaiolas
penduradas do teto, pregadas pelas paredes, empilhadas pelo chão imundo.
Em cada uma delas um pássaro triste e
mudo. As duas entraram como puderam por entre gaiolas, machucando pernas, para escancararem
as janelas.
No mesmo instante em que um raio de luz
entrou na câmara escura, os pássaros, como se desfeito um encantamento,
cantaram para sua primeira alvorada. Elas nunca tinham ouvido tantos pássaros
de tantas espécies cantarem ao mesmo tempo tão diferentes cantos.
– Maravilhoso! – disse Cândida.
– E ensurdecedor! – completou Branca.
Sem atinar o que fariam primeiro,
resolveram tapar os ouvidos com o papel que encontraram no bolso de Branca,
molhando-o com saliva para que ficasse macio. Entre a alegria por não serem
cegos nem mudos e a tristeza por estarem aprisionados, resolveram agir.
Deram água e comida aos pássaros. Horas,
que não souberam dizer quantas, depois de saciados os últimos, voltaram aos
primeiros. Abriram as portas das gaiolas, segurando cada pássaro com cuidado,
soltaram pela janela aberta, para que não se ferissem.
Os pássaros voaram para a árvore mais
próxima, exaustos pelo esforço do exercício nunca experimentado, vergaram seus
galhos até o chão. Aos poucos, abrindo e fechando as asas, como se tateassem o
ar, ganharam o céu, num revoar desgovernado, como morcegos em bando ao
entardecer.
À
beira da exaustão libertaram o último pássaro. Sujas, despenteadas, desfeitas e
cobertas de plumas, saíram da casa dos sete arcos. Ao passarem pelo major
falaram uma para a outra:
–
O mal destrói a si mesmo.
Sabiam que assim que o infortúnio
esgotasse suas forças, retornariam tempos melhores. Naquele momento o chão
incerto fugiu-lhe dos pés. As árvores desfolhadas e descascadas dançaram a
frente delas. Não resistindo ao cansaço e as cãibras que as faziam perder o
passo as duas tombaram no caminho.
As horas que restavam do dia se passaram e, enfim,
caiu a noite sobre elas. Milhares de mariposas cobriram o corpo de
Cândida e Branca. Ao raiar do sol, acordaram do sono sem sonhos numa manhã
sépia, sentindo a boca doce como mel.
Assustaram-se
com uma presença translúcida a tremeluzir, mas logo se deram conta de milhares
de mariposas ao redor. Passaram as mãos pelos cabelos, ajeitaram delicadamente
as roupas e se surpreenderam com o que não viram:
A casa dos sete arcos não existia mais,
nenhuma pedra, nenhum punhado de pó, nenhuma lasca de madeira, nenhum vestígio
para contar que um dia fez parte da história mal rascunhada pelo major.
A terra mesmo tratou de apagá-la,
sepultando a casa, a cerca, as árvores e o pouco que restava do homem que as
manchara, riscando-os da sua face.







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