Conto de Fadas

Era uma vez uma mulher que deu à luz uma linda menina. Já no quarto, ao recebê-la nos braços, chorou sem conseguir conter-se. As roupas dela e da menina ficaram ensopadas, como também a fronha, os lençóis e as toalhas. As enfermeiras esgotaram seus cuidados inúteis. Chamaram a médica que havia feito o parto. A médica atestou que a razão do choro não era tristeza. Era amor. 
A mulher sentia-se um ser imperfeito. Questionava-se. Como pudera receber tão divina graça? Como mostrar à menina a civilização tal como era? Como, aos olhos da menina, o mundo seria justo e bom? Como faria para a menina ver um mundo diferente do mundo que a civilização inventara? Depois de parar de chorar e de muito pensar, decidiu. Ensinaria à menina tudo que de mais importante havia aprendido. A existência de outra natureza. Não palpável, não apreensível, nem densa. Foi assim que a menina, desde os primeiros dias de vida, ouvia a mãe contar histórias de outros mundos: 

A rainha estremeceu e ficou verde de ciúmes. E daí, cada vez que via Branca de Neve seu coração tinha verdadeiros sobressaltos de raiva. Sua inveja e seus ciúmes desenvolviam-se qual erva daninha, não lhe dando mais sossego, nem de dia, nem de noite. Enfim, já não podendo mais, mandou chamar um caçador e disse-lhe:
 – Leva essa menina para a floresta, não quero mais tornar a vê-la; leva-a como puderes para a floresta, onde tens de matá-la; traze-me, porém, o coração e o fígado como prova de sua morte.
O caçador obedeceu. Levou a menina para a floresta, sob pretexto de lhe mostrar os veados e corças que lá havia. Mas, quando desembainhou o facão para enterrá-lo no coraçãozinho puro e inocente, ela desatou a chorar, implorando.
– Ah, querido caçador, deixe-me viver! Prometo ficar na floresta e nunca mais voltar ao castelo; assim, quem te mandou matar-me, nunca saberá que me poupaste a vida.
Era tão linda e meiga que o caçador, que não era homem mau, apiedou-se dela e disse:
– Pois bem, fica na floresta, mas livra-te de sair dela, porque a morte seria certa. E, em seu íntimo, ia pensando: “Nada arrisco, pois os animais ferozes vão devorá-la em breve e a vontade da rainha será satisfeita, sem que eu seja obrigado a suportar o peso de um feio crime”.
Justamente nesse momento passou correndo um veadinho; o caçador matou-o, tirou-lhe o coração e o fígado e levou-os à rainha como se fossem da Branca de Neve. O cozinheiro foi incumbido de prepará-los e cozinhá-los; e, no seu rancor feroz, a rainha comeu-os com alegria, certa de estar comendo o que pertencera a Branca de Neve.

E a menina sonhava com outro mundo, onde meninas, como a Branca de Neve, estariam a salvo de rainhas más. E sonhava.

Fim

Fragmento de texto extraído de Contos e Lendas dos Irmãos Grimm. Trad. Íside Bonini. Ilustrações de Ramirez. São Paulo: Editora Edigraf, vol. 1, s.d.

Incorpóreo

À noite, alguma coisa assustadora, um perseguidor incorpóreo seguia seus passos. A cada esquina que dobrava, a cada rua que atravessava olhava para trás tentando surpreender o perseguidor.
Inútil!
O incorpóreo era companhia constante.
Para não ficar sozinho à mercê de seus desmandos potenciais, atirava-se, então, às loucuras que, à noite, o bairro oferecia: sexo e drogas a escolher.
O dia era diferente. A presença do perseguidor sucumbia à sua luz. Embora o perseguido nem visse o dia passar. Dormia, esquecendo de comer. Esquecia também de tomar a dose de lítio diária.
Era como um fiapo de tão magro. Pele e ossos.
Com a chegada da noite, o ritual começava. Comia qualquer coisa, mas arrumava-se com cuidadoso esmero. A intenção era parecer mais moço do que seus trinta anos. Se possível, quase um adolescente imberbe.
As noites e os dias sucediam-se assim. Rumo à beira do abismo.
Chegou a um estado deplorável. Euforia e depressão alternavam-se nas noites indormidas e nos retalhos dos dias.
Acreditava-se imune a todos os interditos.
Acreditava-se condenado aos piores castigos.
A vida era uma roleta russa.
A cada noite, o incorpóreo ficava mais agressivo, por vezes sentia seu hálito morno como uma lufada de vento de uma boca de lobo. Apressava-se, então, a encontrar um desconhecido ou conhecido qualquer para passar a noite ou a maior parte dela.
As mudanças sucessivas da euforia à depressão tornaram-se a própria droga. No intervalo entre ser um deus e ser um verme, desabou o corpo franzino num vão de porta.
Sem defesas, sentiu uma mão apertar seu punho quebradiço.
O incorpóreo tornara-se corpóreo? Não!
Era um desconhecido com quem passara uma noite desesperada qualquer.
Caridosamente foi levado ao Pronto Socorro. Sua irmã médica foi chamada, transferindo-o para o Hospital de Clínicas onde trabalhava.
Por que deixará de tomar as doses diárias de lítio?
Exames e o diagnóstico: desidratação, subnutrição, anemia,... AIDS.
Chorou até as lágrimas secarem.
À noite, a luz do celular iluminou a penumbra do quarto branco no hospital, o antes perseguido buscou o nome conhecido.
O único acréscimo às palavras de praxe: – Eu caí!

Zélia Viana Paim
(em memória de um ser amado)

Mil Mistérios

Doce camaleão
És tu,
Faz-se
E desfaz-se
Em mil
Fascinantes mistérios.

Confunde meu ser!

Zélia Viana Paim

O nome 14 Crisálidas!


As primeiras lagartas apareceram, caminharam e caminharam pelo pátio, até pararem por um dia inteiro. Então voltaram a caminhar e amanheceram penduradas nos vãos do muro, nas dobras da casa, embaixo do portal da porta. As peles cabeludas caíram num montículo escuro e inofensivo. O outro, a crisálida, tornou-se e assim ficou por semanas. Sem motivo aparente, algumas caíram. Talvez a chuva forte ou o vento morno. Talvez a experiência única de se tornar crisálida. A primeira borboleta saiu, rompendo a fina casca. Ficou pendurada na lombada de um livro, enquanto secava e experimentava ser um novo ser. Ao anoitecer voou. Era preta com raios amarelos.
Contei 14 crisálidas.