domingo, 21 de agosto de 2011

Poço dos Espíritos

Era uma cidade minúscula à beira de um rio estreito, profundo e ceifador de vidas, tinha poucas ruas, doze na direção norte-sul e vinte e quatro na direção leste-oeste. De qualquer ponto da cidade onde o morador ou visitante se encontrasse poderia avistar os campos ao redor. Era um quase nada de cidade, mas carregava uma sina trágica de mortes e almas penadas.
Os mais velhos diziam que a cidade se formou devagar, ficou muito tempo sem nome. Os moradores das fazendas ao redor, chamavam o lugar de vila, como se, na verdade, não quisessem ninguém ali ou, então, cidade alguma ali enraizasse.
A vila recebeu um nome, Poço dos Espíritos, e começou a tomar pé, com a chegada dos padres jesuítas. Mesmo assim, cresceu a passos lentos e conservadores, dividida em duas: uma, a cidade alta, sede do poder civil e religioso e das residências dos proprietários rurais, que se formou em torno da praça da igreja e do colégio.
Na outra parte, a cidade baixa, onde Cândida morava, se desenvolveram as atividades comerciais e se fixaram as casas dos profissionais que aprenderam seu ofício com os jesuítas: os ferreiros, os marceneiros, os curtidores, os oleiros. A cidade baixa também recebeu aqueles que vieram depois, os turcos das casas de tecidos e miudezas, os caixeiros-viajantes dos armazéns de secos e molhados. Esta parte da cidade se formou em torno de si mesma.
A vila depois da chegada dos jesuítas, antes de se tornar Poço dos Espíritos, teve seus caminhos realinhados. Eles traçaram novas ruas, retas e largas, no seu desejo de ordenar o espaço, na sua preocupação em manter o lugar adaptado à distribuição dos misteres sumamente importantes para o bom andamento da futura cidade.
Embora os jesuítas comandassem, arbitrariamente e com sucesso, o traçado das ruas e depois a ordem na cidade e, até mesmo, a história pôde ser dirigida, ela também aconteceu à revelia da vontade dos jesuítas de ordenar o espaço e as mentes. Foi assim que, na infância de Cândida, a cidade se armou e seus filhos guerrearam por ideais divergentes.
Roubando à lembrança esse tempo vivido, Cândida não sabia precisar quanto tempo demorou desde a notícia da primeira embosca e da última traição até Poço dos Espíritos se tornar o destino final de tanto medo e tanto ódio. Foram dias de luta, entre parentes e vizinhos, que se desenrolaram nos pátios, nos becos, nas ruas, nas praças, nos arredores.
Depois que as balas terminaram, que os braços se cansaram de brandir adagas e cortar gargantas, depois que todos os que estavam fadados a morrer até aquele último dia morreram, as mulheres destrancaram as portas e saíram às ruas, recolheram os corpos e prantearam seus mortos com amargura.
Cândida que tinha ficado fechada no porão junto com suas irmãs teve seus sentidos aguçados para sempre. O motivo talvez tenha sido o silêncio profundo no qual estava imersa, quebrado apenas pelo som dos passos, tiros, arquejos de morte, últimos suspiros e pelos barulhos que só no escuro se propagam.
Desde, então, porém, ela nunca mais pôde ficar numa peça com janelas fechadas. Mesmo se o frio fosse cortante e os passos andassem quebrando a geada pelos caminhos no inverno do tempo, Cândida procurava uma fresta qualquer para que pudesse sentir no rosto um sopro do vento por mínimo que fosse.
Depois das lutas, dos velórios, dos enterros que encheram o cemitério de covas rasas e túmulos complexos, a morte se esqueceu de voltar a Poço dos Espíritos. Dias e noites, meses e meses, anos a fio, durante longo tempo ninguém mais morreu por lá. As sombras não se enriqueciam de novas almas e o cemitério jazia como um canto da cidade sem utilidade nem função.
Em contrapartida, a população triplicou, muitas crianças vieram ao mundo, mulheres que pensavam não serem mais férteis, as casadas de muito, as casadas de pouco e as solteiras pariram, como se todas tivessem que provar da fertilidade de seu ventre ou repovoar a cidade. Cândida, também, casou e teve seus filhos.
Então, quando ninguém esperava mais, houve a primeira morte. Uma mulher jovem de vinte anos apenas, depois de comer talhadas de melancia, caiu ou foi jogada da margem mais alta do rio e morreu afogada num poço, que diziam sem fundo. A cidade custou a crer nessa morte.
Os moradores puseram-se a rondar, dias seguidos, as águas negras do rio, procurando ouvir notícias do paradeiro da mulher no murmúrio das águas, mas elas nada lhes segredaram. Afinal, aquele sempre havia sido um rio traiçoeiro de águas negras e frias, de lamentações e memórias perdidas. Quando, enfim, as águas devolveram o corpo, a barriga da defunta estava dura como pedra e os cabelos penteados em duas tranças perfeitas que mãos humanas não puderam desfazer.
Cândida, não se surpreendeu com o acontecido, pois havia sonhado durante a noite com um caixão negro seguido por um cortejo sem fim que caminhava pelo leito seco do rio em total desalento. Nas margens, os salgueiros debruçavam-se tristemente, como se chorassem a própria solidão à passagem das almas cabisbaixas dos mortos da cidade de Poço dos Espíritos.
Zélia Viana Paim

terça-feira, 31 de maio de 2011

O Perfume das Magnólias


Cronistas antigos contaram que a cidade chamada Arvoredo desapareceu da face da Terra por obra do desatino completo de seus moradores.
Arvoredo era a última cidade localizada no extremo do país, distante pouco quilômetros da margem que delimitava o continente. A cidade sempre foi pequena, não só pelo espaço físico que abarcava, mas a mentalidade de seus habitantes também era tacanha. Assim os qualificaram os cronistas da época por delicadeza ou bondade.
Nos primórdios da cidade, seus fundadores traçaram ruas retas, que se cortavam em ângulos retos e o desenho das quadras se aproximava do tabuleiro de xadrez. As calçadas foram pontuadas com mudas nativas, e as ruas largas receberam no canteiro central mudas de magnólia branca, orgulho dos cidadãos de Arvoredo.
A cidade cresceu pouco, os pioneiros morreram e as gerações passaram como folha ao vento. Durante muitos anos, nada foi construído ali, nenhuma calçada ou rua, nenhum galpão ou casa, nenhum muro ou cerca, nem mesmo um poço artesiano, que, nos primórdios, também era o orgulho de cada morador.
O governo também não mudava; apenas se alternava entre duas famílias, os Alonso e os Garcia. Nem a razão para esse continuísmo era questionada. Acontecimentos, que não convém trazer à tona, levaram os seus concidadãos a pensar: “nada mais natural, pois eles são os donos de quase toda Arvoredo”.
A maioria dos moradores de Arvoredo tinha um aspecto cansado e triste. A pele enrugada e seca, os cabelos opacos, os olhos baços, os lábios contraídos. Andavam com paços miúdos e rápidos, sem tempo para um dedo de prosa. Pareciam coelhos de estimação de duas Alices, muito atarefados em compromissos urgentíssimos e inadiáveis, ou, simplesmente, assustados.
Fato é que os habitantes se acostumaram com a cidade mal cuidada, como se ela não fosse deles. O mato crescia nas ruas, e o lixo acumulava-se nas sarjetas. Na época das chuvas, os ratos, ratazanas e outros bichos menos nojentos socorriam-se, boiando em cima dos entulhos carregados pela água suja, que rolava pelas ruas e escorria cidade abaixo rumo ao rio assoreado.
Tal cenário contrastava com a casa bem cuidada de alpendre alto, que exibia em sua fachada duas janelas amplas, como grandes olhos voltados para a cidade. A porta avantajada era o orgulho dos proprietários, feita de um único tronco de cedro rosa, entalhada com cachos de uva e hortênsias que rodeavam um brasão com as letras A e G entrelaçadas. Essa era uma casa de comércio, onde os moradores de aspecto cansado e triste trabalhavam. Facas, facões, serras, machados eram os produtos vendidos, aos quais se somava a grande novidade da época, a motosserra.
Desde que o primeiro dos Alonso havia assumido o poder, mal clareava o dia, uma voz anônima suave e envolvente bombardeava os cidadãos com slogans sobre a excelência do seu sistema de governo. Os cidadãos de Arvoredo não se questionavam com desdobramento inexplicável do discurso que se produzia neles, nem sequer se ouviam repetindo as mesmas palavras ditas.
Os cronistas contaram que o desatino começou quando a mesma anônima voz passou a propalar, em decibéis apropriados, do alto-falante instalado em altíssimo poste no centro da praça, as maravilhas proporcionadas pelo uso da motosserra. A voz flutuava por todos os lados, dissolvida no ar que respiravam. Era a verdade de Arvoredo; qualquer sentimento de hostilidade seria inútil, ou mesmo impensado.
Então o discurso e os fatos fundiram-se. Um lote de terra arborizado teve suas árvores cortadas em pequenas toras de metro e meio. Em questão de horas, aquela parte da Terra estava limpa de frondosas espécies, sob o olhar entorpecido dos espectadores. Nenhum deles jamais questionou o poderio desenfreado do homem armado contra a árvore.
Certo dia, a estranha febre, de que falaram os cronistas, alastrou-se. Principiou quando todos os homens adquiriram a própria motosserra, cujo pagamento, dividido em incontáveis vezes, pesava em seus parcos ganhos. Mas o peito de cada um estufava como o de um sapo cururu a um simples olhar para a máquina. Sentiam-se poderosos alçados de simples homens ao status de proprietários da máquina.
Os fins de semana passavam num afã incansável. Principiaram pelo corte das araucárias centenárias, depois pelo corte dos eucaliptos plantados há quinze anos. Cortaram as árvores nativas: os mognos, os angicos, as aroeiras, os ipês e os cedros; a seguir, cortaram as árvores frutíferas: as laranjeiras, os pessegueiros, os limoeiros, as goiabeiras, nem as parreiras escaparam; por último, derrubaram as magnólias. A cada semana a derrubada ia mais longe.
Segundo o que contaram os cronistas, demorou um tempo considerável, mas não restou uma árvore sequer nos pátios, nos terrenos baldios, nas ruas, nas praças, nos campos, nas margens do rio e dos córregos do município inteiro. À medida que as árvores tombavam os animais se afastavam dos homens e do barulho. Os gatos foram os primeiros, seguidos pelos cães, galinhas, vacas de leite e suas crias.
A cidade parecia mais limpa sem árvores. A limpeza era glorificada pela voz anônima e suave. Todos sorriam uns para os outros satisfeitos, passaram a andar com a cabeça erguida, com paços mais lentos, reuniam-se em grupos e conversavam sobre a transformação. O olhar se estendia ao longe sobre a terra nua como uma chaga, alcançando o horizonte e mais além, afirmavam que podiam ver a curvatura da Terra.
Os compradores de madeira chegaram das regiões próximas e distantes, comboios de caminhões saíam da cidade, carregados de troncos. Os habitantes de Arvoredo encheram os bolsos, antes vazios. Tempos depois da venda da madeira, o clima da região alterou entre calores infernais durante o dia e frios glaciais à noite.
Os moradores passaram a andar cada vez mais rapidamente, com a cabeça baixa, quase enterrada no peito. O sol violento e as escassas sombras das casas forçavam aqueles que se arriscavam a sair às ruas a andar de lado rente as paredes e muros. De humano, não se ouvia um balbucio. De bicho, nenhum som sequer, nem de pássaro, nem de sapo, nem de grilo. Um silêncio sepulcral reinava em Arvoredo.
Os habitantes notaram, com estranheza, a falta que sentiam de coisas bizarras como o farfalhar das folhas à passagem de delicada brisa; os galhos batendo nas vidraças, embalados pela chuva; o hábito dos pássaros, ao amanhecer, voarem baixo ao redor das árvores do pernoite; o tremeluzir das gotas de orvalho nas pontas das folhas antes de caírem ao solo; o perfume das araucárias e dos eucaliptos. Entre todas as estranhezas, sentiam mais a falta do perfume das gigantescas flores das magnólias.
Os cronistas contaram que ninguém soube jamais explicar os motivos que levaram aos acontecimentos que se seguiram. Os habitantes começaram a sangrar pelas narinas; primeiro, foram os Alonso; depois, os Garcia, contagiando as pessoas que cuidavam deles. O estranho sangrar se alastrou pelas famílias inteiras de Arvoredo que não puderam fugir. Não houve tratamento que impedisse o sangrar, foi como se o organismo de cada um não pudesse, ou não quisesse mais, conter em si a própria seiva.
Aqueles que se mantiveram em pé por último tiveram que enterrar os mortos em vala comum, não havia madeira nem tempo para esperar mais caixões. Por fim, quando não restava mais morador em Arvoredo, a tarefa de enterrar os corpos insepultos coube aos habitantes da cidade vizinha, não por se importarem com os fatos ocorridos, tampouco por solidariedade humana, mas por não suportarem mais o mau cheiro que tornava o ar ainda mais irrespirável na região.
Os cronistas contaram que, muito tempo depois de tudo ter passado, a montanha de terra que cobria a vala comum esquentou, expelindo um vapor formado pela decomposição dos corpos. O vapor subiu como um fio escuro ligando a Terra ao Céu. Pairou sob a região e aos poucos condensou, formando nuvens espessas e imensas que se derramaram em chuva ácida e contínua por dias. O nada que restava de vida no município de Arvoredo desfez-se enfim. O solo do município apodreceu. Nada mais nasceu naquela parte da Terra onde, outrora, localizava-se a cidade de Arvoredo, contaram os escritos dos antigos cronistas.

Zélia Viana Paim
Imagem Magnólia Grandiflora

terça-feira, 17 de maio de 2011

Tempo de Contrários

La Gallega, a pequena caravela, singrava o mar profundo há mais de dois meses em direção ao pôr-do-sol na busca de terras novas. Era um barco de casco em “v”, seguro, veloz e de grande mobilidade, característica que lhe permitia navegar ventos contrários. O capitão era homem de poucas palavras e produzia, nos companheiros de viagem, sentimentos alternados de admiração e pavor. Era considerado um louco pela tripulação que temia tanto olhar em seus olhos quanto desobedecer a suas ordens. Os dois jovens, Inês e Miguel, veneravam-no mais que a qualquer outro mortal. O que irmanava os viajantes era àquela altura da viagem estarem todos esgotados; situação agravada pelo racionamento de comida e água.

Inês navegava com o capitão pela primeira vez e àquela manhã, quando acordou, temeu mais uma vez pelas suas vidas.
– Poderosa deusa! Que tempo é este que nunca vi? – Resmungou para si mesma.
O dia amanhecera com uma cor quase impossível de descrever. Nuvens indomáveis corriam de um extermo a outro no céu acima de sua cabeça. O nascente azulado sem um fiapo branco sequer e o poente encoberto de nuvens roxas que se enrolavam uma sobre as outras como se fossem meadas de linha. Aos olhos de Inês, parecia o caos do início ou do fim dos tempos.
– Não desabeis vossa fúria sobre nós. Recuai! Não jogueis sem piedade esse barco no profundo mar. Livrai-nos dos monstros que habitam o insondável abismo! – Pedia a jovem Inês, erguendo as mãos para as nuvens e as baixando para o mar repetidamente numa dança singular.
Inês confiava no capitão, conhecia-o desde menina, do tempo em que sua mãe ainda era viva. Acreditava nele. Admirava-o. Era um homem muito sábio. Sempre foi navegador, conhecedor dos caminhos do mar e das estrelas do céu. Mas agora navegavam um mar desconhecido e as estrelas ainda não tinha função nem nome.
– Os elementos, nestes confins, talvez desconheçam o homem e suas minúsculas naus. Por que fui tirar meus pés da terra firme? Ah! Sábia criatura, para não seres queimada numa fogueira como tua pobre mãe. Lembra-te! Esses ainda são tempos governados pela santa Igreja – respondeu para si mesma, abraçando o corpo estremecido por um calafrio.
A fixação de Inês pelo poente, a paixão pelo desconhecido fora a única coisa que herdara da mãe. Ela fora uma mulher bela e sábia, conhecedora do poder das fases da lua sobre as marés e das estrelas sobre o destino dos humanos. O saber de Inês era outro: o poder oculto das plantas.
Sabia de plantas com folhas e galhos escuros, sem flores, com frutos negros, de forma rara e estranha, com crescimento tão lento quanto a eternidade, que tinham o poder de entorpecer os sentidos. Sabia de plantas que existiam somente perto da água doce, com folhas frias e enormes, cujo leite sem sabor excitava mil vezes o apetite sexual. Sabia o poder de muitas mais. Esse seu saber, como o de sua mãe, também era perigoso aos olhos dos que tinham poder.
Isso tudo pensava Inês, em sua limitada cabine, enquanto macerava folhas secas de mirra com seus dedos delicados de unhas curtas e rosadas em um pote de porcelana. Quando se tornaram pó, arrumou um montículo numa pequena concha de madrepérola e, virando-se para o poente, ateou fogo e invocou quando um fio de fumaça subiu serpenteando em espiral:
– Poderoso e imortal Zéfiro! Bondosa força do vento Oeste! Socorrei estes míseros mortais que ousaram ter poder para navegar sob as estrelas no desconhecido mar. Conduzi essa nau pelos caminhos do mar ao encontro da terra firme. Deusa poderosa! Agradeço a vós, sapientíssima e amorosa, pelas palavras que saíram da minha boca.

Alheio a reza e ao ritual de Inês, Miguel, o cristão novo, amigo e ajudante do capitão, também estava incomodado com a cor do céu naquela manhã.
– Eu acredito no capitão, ele é o mais sábio dos homens. É um homem poderoso. Os caminhos do mar desconhecido se abrem generosamente para ele. Logo, ele é capaz de navegar o mar sem fim. Tenho fé! Nosso Senhor, Deus-Todo-Poderoso! Ele chegará aonde deseja ir; – afirmava para si mesmo, completando – embora, o tempo não esteja do seu lado.
As palavras escapavam de sua boca como se fosse uma prece. Miguel era alto, com a pele clara, os cabelos e os olhos negros. Sob o lábio leporino quase imperceptível, usava um bigode. Vivia para perscrutar o horizonte infinito durante o dia, e as estrelas durante a noite. Era minucioso nos seus cálculos e de total confiança do capitão.
– Meu Deus! Pelos meus cálculos, já navegamos toda a água estimada pelos estudiosos, já ultrapassamos inúmeras vezes a linha do horizonte. E até agora nada, nenhum sinal de terra. Meus olhos cansados avistam caudas de dragão seguindo a nau. Poderiam avistar, ao menos, uma ave qualquer no céu. Essas sim seriam um bom presságio, mas nada, nada, a não ser o desconhecido insondável, a sombra dos mitos e este tempo que não é nosso. Tempo de outros tempos, outras eras, outros mundos – falava gesticulando em volta da mesa com mapas abertos sobre ela e, sobre os mapas, bússolas, astrolábios e quadrantes.
Desde menino, Miguel acompanhava o capitão em suas viagens, navegara com ele pelos mares quentes da África e pelos mares gelados do Norte. A sua educação na arte da navegação fora destinada ao capitão pelo próprio pai. Ele era um mercantilista judeu que acumulara grande fortuna, em pouco tempo, graças a seus empreendimentos na navegação. O pai de Miguel pretendia fazer dele capitão de sua própria nau e, talvez, de sua própria frota. Miguel considerava o pai um homem de visão aguçada para a época.
– Meu Deus, Pai Todo Poderoso, Senhor do Universo, céus e terras estão sob vosso domínio, ajudai-nos, tende piedade de nós – pedia enquanto escrevia em seu diário:
"Estamos a sessenta o oito dias no mar. A última vez que vimos terra foram as ilhas onde abastecemos de frutas, água e caça há quarenta e oito dias. Depois não encontramos mais terra. Enfrentamos todo tipo de tempo nesses meses de viagem: tempestade, bonança, calmaria, mas nunca um tempo assim. O céu está em revolta e as nuvens estão bem próximas, creio que, em breve, desabarão sobre nós. O mar está calmo e liso como um rio. Isso não o impedirá de nos esmagar como seres ínfimos que somos à mercê de seus humores. O capitão não dá mostras de preocupação, mandou baixar as velas, deixando somente a da popa e deu ordens para contemporizar e esperar a tempestade."

Miguel fechou o diário e saiu ao encontro de Inês, alcançando-a no instante em que soprava cinzas para o vento. Na proa, os dois jovens miraram o poente esperando algum sinal. À frente deles, as nuvens eram como um paredão roxo quase negro. Então, suas narinas dilataram, e ambos sentiram uma leve mudança no cheiro salgado de mar. O vento mudara trazendo um perfume dulcíssimo, tão agradável que deu aos dois um prazer imenso em senti-lo.
– Estarei tendo novas alucinações? – Perguntou-se Miguel, mal mexendo os lábios, tentando menosprezar a secreta alegria que tantas vezes antes provara ao sentir o cheiro de terra a léguas de distância.

Um troar de trovões anunciou a chuva que desabou copiosa sobre o mar, os pingos eram grossos, pesados e quentes. Miguel e Inês voltaram aos seus lugares. O mar liso encrespou levantando vagas imensas que batiam no lenho com estrondo de mil tambores. A tripulação lutou para proteger o barco e a vela da reviravolta inesperada do vento. Choveu durante horas ininterruptas. Parou no fim da tarde, quando o sol ainda estava a um palmo do horizonte. Um bando de aves brancas, nunca vistas, retornando para terra, veio dar à nau. Era o segundo sinal de terra, em quarenta e oito dias, navegando sempre em direção ao poente. Na proa, Inês e Miguel sorriram igualmente agradecidos e crédulos.

Zélia Viana Paim
Reescrito, publicado, em 2004, no Jornal Letras Santiaguenses.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Uma História Surreal

Estes fatos que passo a contar aconteceram antes que a região fosse invadida por uma fauna humana constituída de esotéricos e cientistas. Foi no tempo em que a impiedosa seca assolou a região; as manhãs e as noites eram frias, e um vento morno que principiava ao meio dia, enrolava as folhas das árvores, fazendo com que caíssem ainda verdes e forrassem o solo, deixando que os galhos nus, como dedos sem carne, apontassem para todos os lados.
– O vento da miséria! – reconheciam todos.
Éramos todos conhecedores dos caprichos do tempo, morávamos no corredor da seca, ao norte do continente. Estávamos acostumados com a seca nos longos meses de estio; entretanto, uma seca inclemente igual aquela nunca tínhamos visto, nem mesmo os cidadãos centenários. O sol jamais repousava no firmamento hostil e crestava as peles banhadas de suor. O trabalho arrastava-se pela região em morna lentidão.
Todos sofriam com fortes dores de cabeça e de garganta por causa do sol que não dava tréguas. Os açudes da região e, até mesmo, as lagoas, que sempre havia resistido à estiagem, secaram pela primeira vez. No grande rio exaurido, ainda restava um filete de água escorrendo lento no leito rachado.
Então, nesse clima de secura extrema, nossa pequena cidade tornou-se palco de fatos estranhos. Dizem que tudo começou, inclusive a seca, com a construção da estrada, desde então, precipitaram-se desencadeando na população um misto de assombro, curiosidade e redobrada fé.
O novo traçado da estrada que ligava as duas únicas cidades da região exigira a detonação de cerros, o corte de árvores e a drenagem de banhados e sangas. O traçado da estrada velha contornava esses obstáculos; embora, não passasse de um caminho largo aberto por braços fortes e pequenos tratores.
Os moradores diziam que o traçado novo deveria estar há anos no papel, porque, nos mapas rodoviários da região, a estrada constava como sendo asfaltada. Fato que causava transtorno em viajantes desavisados. Durante anos, os moradores ouviram dizer que as verbas se sucediam para a construção, mas desapareciam nos labirintos da burocracia.
O certo foi que, numa fatídica manhã, um cerro precisou ser explodido, justamente aquele da gruta da Santinha. Era uma santa antiga, de cujo nome ninguém lembrava mais. Os moradores mais velhos e crédulos visitavam-na regularmente, acendendo velas em agradecimento às mesmas graças recebidas. Ao ser mandada pelos ares, com o cerro de pedras no qual fora caprichosamente assentada, há tantos séculos que ninguém sabia ao certo, a gruta da Santinha caiu no solo intacta sem uma rachadura e com as velas ainda acesas.
Então, as peregrinações começaram; primeiro, à noite, depois, durante o dia. As pessoas comuns, por curiosidade; os antigos devotos, por fé renovada e os novos, por crença recente. Os peregrinos acenderam velas aos pés da Santinha, ao redor da gruta, pelos caminhos percorridos até ela. A luminosidade era tamanha que podia ser avistada da cidade, do campo, dos lugares longínquos, do espaço pelos satélites e destes pelo mundo.
– Os acontecimentos são estranhos, mas talvez possam ser detidos pela mão do homem – decretou um dos mais novos vereadores da cidade.
Os caminhos foram patrulhados por voluntários, e os peregrinos, constrangidos, menos Valentina, a beata.
– Ninguém pode conter os desígnios do Pai! Olhem os sinais! Olhem para o céu! Vejam como as estrelas estão brilhantes! Vejam com seus próprios olhos! – gritava Valentina, a beata que viera com a primeira leva de peregrinos, para um público cada vez maior de lentos e sedentos fiéis.
Os últimos acontecimentos estranhos se deram no mesmo dia em que esotéricos e cientistas invadiram a cidade.
O dia nasceu com uma nuvem formada por bandos de urubus pairando sobre a cidade, como se fosse um redemoinho negro. Homens armados com armas de fogo dos mais diversos calibres atiraram contra o olho do redemoinho. As inúteis saraivadas de balas, no entanto, não fizeram mossa no impenetrável. Sem sucesso, apelaram para flechas incendiárias, causando pequenos incêndios, por causa das folhas secas.
Neste mesmo dia de ações inúteis, Venerável Fortuna, o vereador mais antigo e respeitado, reeleito por décadas seguidas, fez mais um discurso inflamado contra todos. Antes de finalizar sua fala, um ataque de tosse acometeu o velho vereador que cuspiu folhas verdes e pétalas amarelas.
Aos olhos de todos os incrédulos presentes, adversários e companheiros de tribuna, foi transmutando aos poucos no que parecia ser um pé de fedegoso.
– Agora  sim, ele é um pé de fedegoso em flor! – exclamou o agrônomo Juarez, acrescentando: – Senna macranthera é o nome científico da espécie – para o microfone que uma mão anônima lhe estendia.
Os galhos da árvore recém formada do homem subiram para os céus, alcançando o bando de aves negras. Ao toque dos galhos mais altos, o impenetrável redemoinho desfez-se numa intensa luz violeta, cegando os presentes. Quando puderam abrir os olhos novamente, libélulas azuis voavam pelas flores amarelas da árvore, e gatos, às dezenas, pelo chão, rondavam as libélulas.
Só Valentina, a beata, sorria.
– Bem-feito! Eu avisei! – falou, abrindo a sombrinha estampada com flores amarelas no momento em que as primeiras libélulas começaram a cair, mudando em velas acesas ao tocarem o solo, para congraçamento dos homens e desapontamento dos gatos...

Zélia Viana Paim

terça-feira, 26 de abril de 2011

Parte I - Cotidiano

Bina acordou cedo, antes das cinco horas, pretendia pegar o ônibus às seis e meia. Tomou um café forte sem açúcar e saiu para o ar seco e frio do sábado. Bateu a porta sem querer, não pretendia acordar o pai. O vento começou quando seus pés calçados com botas gastas tocaram a terra. Setembrina era o seu nome, por obra da parteira que a ajudou a nascer no dia em que começou a ventania há dezesseis anos. A mãe de Bina havia parido tantos filhos, que não sabia qual nome lhe dar.
– Setembrina é um bom nome – dissera a parteira para a mãe de Bina e emendara: – No fim, ela vai acabar sendo Bina mesmo, que é muito mais bonito, mas não é nome de gente deste mundo.
A estação rodoviária estava quase vazia quando Bina chegou.
A um canto, à esquerda, uma mulher guarani, rodeada de cestos de vime com coloridos desenhos, de tamanhos e formatos variados, parecia estar acordando no improvisado abrigo noturno. Um menino guarani de mais ou menos cinco anos que saltitava por ali ofereceu a Bina um sincero sorriso, como se fosse o anfitrião de um encontro misterioso engendrado pelo destino.
No canto oposto, sentada em um banco de madeira, uma mulher jovem acendeu um cigarro no outro recém findo e tragou com prazer ostensivo, soltando uma baforada farta e branca que se desfez ao vento.
Bina sentou-se em outro banco igual ao dela, lustroso pelo uso, a uma distância considerável da jovem mulher.
O silêncio era quebrado por latidos distantes, pelo barulho de um saco de plástico branco que voava em redemoinho e pelo rasque-rasque dos chinelos do menino guarani no piso de cimento.
Algum tempo depois, chegou o primeiro dos três soldados que se seguiram. Os três retardatários caminhavam se empurrando, rindo e falando alto.
– Pensei que tu tinhas ficado detido, cara – falou um dos que chegavam.
– O tenente falou com o sargento, livrou a minha cara. Foi tudo brincadeira do tenente, que me mandou entregar uma florzinha pro sargento.
Todos gargalharam muito, ao ponto de se engasgar, tossir e cuspir para chão. O que encantou o menino guarani. Voltaram a conversar e se calaram ao mesmo tempo, sem antes falarem mal do tenente e chamarem o sargento de florzinha.
Enfim, as portas da rodoviária se abriram, todos se dirigiram aos guichês onde duas mulheres vendiam as passagens. Uma das mulheres, com o controle remoto, mudava os canais da televisão na parede em frente.
Enquanto o ônibus azul e branco da empresa Nova Fronteira estacionava, chegou mais um passageiro.
Era um senhor de mais ou menos setenta anos. Usava bombachas, camisa branca, botas, guaiaca e carregava uma mala de garupa com listras azuis, vermelhas e brancas. Era seu João, dono da granja Luzia.
Com as passagens compradas, rumaram para seus lugares no ônibus, em um ritmo solene, como se fosse uma dança com os mesmos gestos longamente ensaiados.
Quando o ônibus partiu, o menino guarani ficou olhando desolado, como se lhe roubassem velhos amigos, conhecidos de longa data, outras eras, outros mundo, convivas da sua festa imaginária.

Parte II - Conversa Séria


No ônibus, todos os passageiros, menos Bina e a jovem fumante, empenharam-se em uma conversa séria, apropriada para aquela hora.
Depois de alguns quilômetros rodando em uma estrada poeirenta e esburacada, a primeira parada.
O cobrador desceu para colocar no bagageiro os arreios do peão, que fizera sinal para o ônibus parar.
Um homem moreno entrou, era um cavaleiro sem montaria, estava vestido com indumentária própria para trabalho pesado com o gado, mantinha amarrado na cintura um tirador surrado que ostentava diferentes marcas negras feitas com ferro em brasa.
João, o velho granjeiro, alinhavou uma prosa com o recém chegado:
– Bom dia, meu rapaz! Voltando das lidas campeiras da semana?
– É, estava marcando o gado do coronel Pavão.
– Vi teu irmão mais novo, o Tiago. Estava armado, andava caçando. Ainda brinquei com ele, disse: tamanho homem caçando, isso é coisa de guri pequeno que não tem o que fazer. Ele não me respondeu.
– É mania! – respondeu o recém chegado sentando no banco ao lado – Ele e o Mano Velho do finado Antônio, rasparam tudo: mato, campo e toca. O que era bicho eles caçaram: tatu, capivara, lebre, preá, jacaré, pomba – continuou o peão.
Nova parada interrompeu a conversa.
Uma senhora, de uns oitenta anos ou mais, e uma mulher jovem e forte com um filho dormindo nos braços entraram no ônibus. A cabeça loira estava recostada no ombro da mãe e da boca aberta escorria uma baba cristalina.
Ambas andaram pelo corredor do ônibus até sentaram lado a lado nos últimos bancos. O menino acordou e chorou quando a mãe sentou-se, mas esta logo lhe deu o seio, sossegando a criança.
– Então, dona Maria, andava lá no Pedro? Quem haveria de dizer, não é dona Maria? Aquela traidora! Uma criatura nascida e criada entre a gente. Quem poderia imaginar uma coisa dessas? – perguntou a mãe do menino num só fôlego para a velha senhora.
– É triste! – respondeu a velha senhora.
– Abandonar tudo desse jeito. Deixar o marido e a filha mocinha. Dizem que a menina não quis ir quando ela mandou buscar!? Rica filha! Na certa ficou com pena do pai, largado pela mãe. – continuou a mãe do menino.
– Pois é! – respondeu a velha senhora.
Por um tempo, silêncio... Quebrado pela voz do cobrador:
– São dois reais até Campo Limpo, senhoras.

Parte III - Sonho


A conversa entre os passageiros continuou.
Bina recostou-se melhor na poltrona gasta e dormiu embalada pelas vozes cada vez mais distantes.
Sonhou.
Estava em um castelo erguido no meio de um campo de ninguém. As janelas batiam, as portas rangiam sopradas por um vento escaldante. Uma poeira fina entrava pelas frestas, como grandes pernas de um inseto gigante feitas de minúsculos pontos flutuantes. No centro de uma sala vermelha, ela dançava uma valsa solitária num rodopiar febril.
Acordou suada quando o ônibus entrava na cidade.
Os passageiros ainda conversavam.
– Chegamos!– disse o granjeiro.
– Rincão dos Butiás! Cidadezinha velha, seu João? – falou o peão.
– Esta é outra cidadezinha que está se terminando – respondeu ele.
– É! Cidadezinha ruim de emprego e, ainda por cima com esse vento sem fim – remendou o peão.
Bina sentou-se melhor, jogou para trás os cabelos de hidra, esperou que os passageiros descessem e resmungou:
– Só o que me falta é morrer neste fim de mundo, nesta cidadezinha, nesta boca escancarada que sopra o vento no mundo.
Calou-se, pensando e resmungou de novo:
– A primeira coisa que vou fazer é ir ao cemitério, visitar o túmulo de meus ancestrais... Engraçado, pensar neles agora. Todos os meus mortos estão lá. Elas em maior número que eles... Inferno! Isso sim seria uma maldição?
A velha senhora olhou tristemente para Bina, que levantava.
– E se este ônibus me levasse mesmo para uma Nova Fronteira, um lugar em que o poderoso Deus tivesse tocado com o dedo e dito quando nasci:
– Encontra-o, criatura! – murmurou Bina atrás da velha senhora.
Bina deu de ombros, arrumou a longa cabeleira ruiva, passou a mão pela roupa amarrotada, tateou a chave no bolso do jeans e as poucas moedas que restavam, saiu do ônibus e rumou para casa, tentando adivinhar o que restaria ainda de seu destino ingrato de nascer com o vento.
Mal Bina tocou com a ponta do pé a terra vermelha, o vento recomeçou. Um vento interminável que arrancava as folhas das árvores e as varria para além dos muros, das casas, dos túmulos, dos templos, da cidade, daquela região...
Zélia Viana Paim

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Conto de Fadas

Era uma vez uma mulher que deu à luz uma linda menina. Já no quarto, ao recebê-la nos braços, chorou sem conseguir conter-se. As roupas dela e da menina ficaram ensopadas, como também a fronha, os lençóis e as toalhas. As enfermeiras esgotaram seus cuidados inúteis. Chamaram a médica que havia feito o parto. A médica atestou que a razão do choro não era tristeza. Era amor. A mulher sentia-se um ser imperfeito. Questionava-se. Como pudera receber tão divina graça? Como mostrar à menina a civilização tal como era? Como, aos olhos da menina, o mundo seria justo e bom? Como faria para a menina ver um mundo diferente do mundo que a civilização inventara? Depois de parar de chorar e de muito pensar, decidiu. Ensinaria à menina tudo que de mais importante havia aprendido. A existência de outra natureza. Não palpável, não apreensível, nem densa. Foi assim que a menina, desde os primeiros dias de vida, ouvia a mãe contar histórias de outros mundos... 
[...]
A rainha estremeceu e ficou verde de ciúmes. E daí, cada vez que via Branca de Neve seu coração tinha verdadeiros sobressaltos de raiva. Sua inveja e seus ciúmes desenvolviam-se qual erva daninha, não lhe dando mais sossego, nem de dia, nem de noite. Enfim, já não podendo mais, mandou chamar um caçador e disse-lhe:
Branca de Neve no esquife de cristal
 – Leva essa menina para a floresta, não quero mais tornar a vê-la; leva-a como puderes para a floresta, onde tens de matá-la; traze-me, porém, o coração e o fígado como prova de sua morte.
O caçador obedeceu. Levou a menina para a floresta, sob pretexto de lhe mostrar os veados e corças que lá havia. Mas, quando desembainhou o facão para enterrá-lo no coraçãozinho puro e inocente, ela desatou a chorar, implorando.
– Ah, querido caçador, deixe-me viver! Prometo ficar na floresta e nunca mais voltar ao castelo; assim, quem te mandou matar-me, nunca saberá que me poupaste a vida.
Era tão linda e meiga que o caçador, que não era homem mau, apiedou-se dela e disse:
– Pois bem, fica na floresta, mas livra-te de sair dela, porque a morte seria certa. E, em seu íntimo, ia pensando: “Nada arrisco, pois os animais ferozes vão devorá-la em breve e a vontade da rainha será satisfeita, sem que eu seja obrigado a suportar o peso de um feio crime”.
Justamente nesse momento passou correndo um veadinho; o caçador matou-o, tirou-lhe o coração e o fígado e levou-os à rainha como se fossem da Branca de Neve. O cozinheiro foi incumbido de prepará-los e cozinhá-los; e, no seu rancor feroz, a rainha comeu-os com alegria, certa de estar comendo o que pertencera a Branca de Neve.
[...]

E a menina sonhava com outro mundo, onde meninas, como a Branca de Neve, estariam a salvo de rainhas más... E sonhava.

Fim

Imagem e fragmento de texto extraídos de Contos e Lendas dos Irmãos Grimm. Trad. Íside Bonini. Ilustrações de Ramirez. São Paulo: Editora Edigraf, vol. 1, s.d.

domingo, 3 de abril de 2011

Incorpóreo


À noite, alguma coisa assustadora, um perseguidor incorpóreo seguia seus passos. A cada esquina que dobrava, a cada rua que atravessava olhava para trás tentando surpreender o perseguidor.
Inútil!
O incorpóreo era companhia constante.
Para não ficar sozinho à mercê de seus desmandos potenciais, atirava-se, então, às loucuras que, à noite, o bairro oferecia: sexo e drogas a escolher.
O dia era diferente. A presença do perseguidor sucumbia à sua luz. Embora o perseguido nem visse o dia passar. Dormia, esquecendo de comer. Esquecia também de tomar a dose de lítio diária.
Era como um fiapo de tão magro. Pele e ossos.
Com a chegada da noite, o ritual começava. Comia qualquer coisa, mas arrumava-se com cuidadoso esmero. A intenção era parecer mais moço do que seus trinta anos. Se possível, quase um adolescente imberbe.
As noites e os dias sucediam-se assim. Rumo à beira do abismo.
Chegou a um estado deplorável. Euforia e depressão alternavam-se nas noites indormidas e nos retalhos dos dias.
Acreditava-se imune a todos os interditos.
Acreditava-se condenado aos piores castigos.
A vida era uma roleta russa.
A cada noite, o incorpóreo ficava mais agressivo, por vezes sentia seu hálito morno como uma lufada de vento de uma boca de lobo. Apressava-se, então, a encontrar um desconhecido ou conhecido qualquer para passar a noite ou a maior parte dela.
As mudanças sucessivas da euforia à depressão tornaram-se a própria droga. No intervalo entre ser um deus e ser um verme, desabou o corpo franzino num vão de porta.
Sem defesas, sentiu uma mão apertar seu punho quebradiço.
O incorpóreo tornara-se corpóreo? Não!
Era um desconhecido com quem passara uma noite desesperada qualquer.
Caridosamente foi levado ao Pronto Socorro. Sua irmã médica foi chamada, transferindo-o para o Hospital de Clínicas onde trabalhava.
Por que deixará de tomar as doses diárias de lítio?
Exames e o diagnóstico: desidratação, subnutrição, anemia,... AIDS.
Chorou até as lágrimas secarem.
À noite, a luz do celular iluminou a penumbra do quarto branco no hospital, o antes perseguido buscou o nome conhecido.
O único acréscimo às palavras de praxe: – Eu caí!

Zélia Viana Paim
(em memória de um ser amado)

sexta-feira, 25 de março de 2011

Mil Mistérios

Doce camaleão
És tu,
Faz-se
E desfaz-se
Em mil
Fascinantes mistérios.

Confunde meu ser!

Zélia Viana Paim